sábado, 12 de março de 2011

"Nada de desculpas..."!

Nós não temos mais desculpas!
Se os gemidos e lamentos, se os apelos e lágrimas, se os silêncios e os desesperos dos nossos irmãos e irmãs já não são suficientes para nos acordarem, então que sejam escutadas as palavras do próprio Jesus: «Foi a Mim»!!!
E estas mesmas palavras têm de fazer «moça», tem de «mexer» com cada um de nós! Porque este é, necessariamente, um dos textos essenciais do Evangelho (ler Mt 25, 37)! Um texto que responde a todas as especulações e esforços para procurar Deus e dizemos não saber onde!
Esta palavra é, verdadeiramente, desconcertante!
Nós, muitas vezes, demasiadas vezes até, preferimos o Senhor dos nossos cânticos e das nossas orações! É, claro mais cómodo!
Graças a Deus que alguns já conseguiram fazer a passagem; que alguns já tomaram e levaram a sério a palavra de Deus; que alguns sabem e vivem a verdadeira Quaresma, o autêntico jejum, a renúncia generosa e fecunda...
Porém, muitos outros, muitos de nós, cristãos de «todos os dias» havemos de redescobrir a força, a carga e a ousadia dessa palavra de Jesus! Temos mesmo que converter ideias, conceitos e preconceitos, hábitos, «tranquilidades» «consciências serenas» para conseguir a beleza e ousadia do inconformismo, da desinstalação, do Evangelho em nós!
Não temos mais desculpas, de facto!
Jesus identifica-se com cada outro, entra em comunhão e unidade com cada coração e, a escolher, a preferir, a chamar de irmãos e de irmãs, abraça os pobres, os nús, os fracos, os doentes, os famintos, os presos, os rejeitados, do mundo e da Igreja!
Para nos ensinar o caminho; para nos «abrir os olhos» demasiadamente tão fechados para a caridade e o serviço, a generosidade e a partilha, a disponibilidade e a verdade, e tão abertos para espiritualismos sem vida nem coração, para piedades tão amorfas, tão desencarnadas da vida real, tão sem alma verdadeira!
Será o jejum de comida, de bebida, que agrada ao Senhor?!
Não será antes o jejum da indiferença e da apatia, dos egoísmos e das vaidades, das sobrancerias e comodismos?! Não será antes o jejum da opulência, da avareza, da «beatice» descontrolada e sem efeitos?!
«Foi a Mim»! «Foi a Mim» que o fizestes - ou deixastes de fazer!
Não, não temos mais desculpas!
Ele, o nosso Deus, aí está, de mão dada, de coração envolvido com o coração de cada um que chora à beira da vida porque escorraçados da nossa religiosidade cega, porque marginalizados pela nossa pressa «espiritualóide»!
Quaresma é esta oportunidade de reconhecer nos crucificados de hoje O Crucificado de sempre!

quarta-feira, 9 de março de 2011

"Na longa estrada..."

Quaresma!
De novo; como se da primeira vez se tratasse!
Como orvalho que desce do céu, como onda que se encaminha para a praia, como vento que sopra forte diante de nós, eis o «tempo favorável» para nos deixarmos «consertar» bem por dentro, para nos deixarmos «moldar» qual barro frágil nas mãos do Divino oleiro, para sermos capazes de, numa palavra, conversão!

"Hão-de olhar para Aquele que trespassaram"!

Na longa estrada de quarenta dias que temos diante de nós, importa abrir os ouvidos e os olhos da alma e do coração. Deus ousará desafiar-nos a algo grandioso, nobre, forte e poderoso! Deus desejará a nossa entrega desmedida, a nossa confiança ilimitada, a nossa generosidade sem regateios! Deus procurará, homens e mulheres, que ousem pôr-se a caminho com Ele, subindo a Jerusalém, ou seja, que com Ele acolham o mistério de uma Paixão, Morte e Ressurreição, como hino e estandarte derradeiros do que significa Amor e Vida, Verdade e Céu!
Na longa estrada que havemos de percorrer, desde o primeiro segundo, desde o primeiro passo, percebamos e acreditemos que nao importa nada rasgar as vestes mas sim os corações! Que não vale nada jejuar de carne ou de peixe mas sim do pecado e do fermento do «homem-velho» que nos consome e mata antes de se morrer!
Na longa estrada para a Páscoa, começemos imediatamente, sem nos determos no caminho, pela adesão ao Homem-Deus que avança rumo ao Calvário, a fim de se sujeitar, por Amor, ao escárnio e à ignomínia, à maledicência, à Morte que nos trará a Vida em abundância.
Sem falsas espiritualidades, sem pieguices religiosas, sem pietismos alienantes, sem rituais desprovidos de coração e de sentimentos, avancemos por essa estrada, sempre desconhecida, sempre nova, sempre desconcertante, sempre imprevisível, que é a Quaresma!
No cimo de um Monte, pregado num Madeiro, um Deus espera por nós; um Mestre intentará segredar-nos: «Tenho sede»!; um Salvador teima em balbuciar: «Hão-de olhar para Aquele que trespassaram»!
Esse é o nosso caminho, esse é o nosso destino: olhar - com olhos de ver - para Aquele que trespassaram! Olhar para esse Lado trespassado, Lado aberto, para nele eu posso entrar...
Na longa estrada... na longa estrada que iniciamos hoje, que cada passo tenha o rumo da verdade e da paz, da reconciliação e da misericórdia, da justiça e da partilha, da penitência e da simplicidade...
Sem arrogâncias e vaidades humanas, sociais, espirituais; sem máscaras que intentem mostrar aquilo que não somos nem temos; sem rodeios que nos afastem dessa «rota» traçada há mais de dois mil anos: a Cruz!
Na longa estrada que daqui a pouco começamos, venhamos todos, sem excepção, para aprender a amar a Cruz, para aprender a amar Jesus...
Santa Quaresma a todos para que possamos viver uma Santa Páscoa da Ressurreição...

domingo, 6 de março de 2011

"Esta é a hora"!

A Palavra de Deus hoje não poderia ser mais explícita, provocadora, radical! Ela interpela, ela desafia e desinstá-la, ela «obriga» à reflexão de quantos se afirmam discípulos de Jesus de Nazaré! Na verdade, não poucas vezes nos esquecemos dessa interjeição do Mestre quando afirma que não é dizendo «Senhor, Senhor» que entraremos na vida eterna!
Quantos de nós não estão ainda convencidos que é o «coleccionismo» de sacramentos ou de gestos piedosos que nos alcançam o Reino?! Quantos de nós não vivemos mais em função de espiritualismos em detrimento de fé incarnada na vida?! Quantos de nós não «fazemos milagres», não pregamos em Seu nome e depois, a vida fala, melhor grita, precisamente o contrário do que anunciámos?!
Talvez mais do que em qualquer outro tempo urge uma luta feroz, um combate vigoroso, contra essa chaga tremenda que é o divórcio entre a fé proclamada e professada com os lábios e a vida quotidiana! A coerência, a fidelidade, a verdade, a justiça, a caridade, a frontalidade, a partilha, a generosidade, terão, necessariamente, que ser o nosso «cartão de visita» diante do mundo. Porque este mesmo mundo está, também ele, cansado, de palavras e pregações vãs, de bons propósitos (que não são mesmo mais do que isso), de boas vontades, de exigências feitas em nome de uma fé que depois não é amada, abraçada, vivida...
"Não vos conheço. Apartai-vos de mim vós que vivestes a iniquidade"!
São palavras fortes que saem do coração de Deus. Palavras que denunciam a hipocrisa de quem enche  a boca de Deus mas tem d'Ele vazio o coração e a alma! Palavras que pretendem uma conversão interior em cada um de nós, a fim de edificarmos a nossa vida, a nossa casa, na rocha firme e inabalável que é o próprio Cristo em vez de a construirmos nas areias movediças da nossa auto-suficiência e da nossa mentira, do nosso endeusamento e da nossa vaidade, dos nossos orgulhos e preconceitos!
Esta é a hora da verdade da fé, da verdade da Igreja, da verdade dos discípulos de Cristo. Adversos ao acessório e ao epidérmico, enxertados no essencial que é Cristo e Cristo Crucificado e Ressuscitado.
Esta é a hora da fidelidade dos nossos corações. Da fidelidade nas coisas simples e humildes para sermos grandes aos olhos de Deus.
Esta é a hora do amor nas nossas vidas, palavras, desejos, juízos, horizontes...
Esta é a hora de Deus...
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