"Sempre mais do que eu sei dizer"
"Por mais que a vida nos agarre assimNos troque planos sem sequer pedir
Sem perguntar a que é que tem direito
Sem lhe importar o que nos faz sentir
Eu sei que ainda somos imortais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se o meu caminho for para onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes
É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu te sei dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer
Por mais que a vida nos agarre assim
Nos dê em troca do que nos roubou
Às vezes gogo e mar, loucura e chão
Às vezes só a cinza do que sobrou
Eu sei que ainda somos muito mais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se a minha vida for por onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes
É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu te sei dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer".
Esta fala-nos do Amor, de um Amor intenso, tal como o é, certamente, o Amor de Deus por cada um de nós; como o é, certamente, o amor humano quando vivido na sua íntegra e intensidade, na sua radicalidade e na sua beleza mais profundas.
Quantos "lugares ausentes" no nosso coração humano a precisarem ser preenchidos pela força do Divino, pela presença de Deus! Quantos sentimentos com traços de frugalidade, de ligeireza e de banalidade! Quantos afectos desordenados, interesseiros e ocos, pois que se negam à profundidade do coração e à exigência da doação!
Se a nossa vida for, tão simplesmente, pelos caminho por onde Deus vai, quão diferente seria esta mesma nossa vida, que renovado sentido faria o nosso peregrinar, tão longe iria o poder da nossa existência! Mas, porque fugimos ao amor, porque nos escondemos da verdade que realiza, porque nos envergonhamos dos laços que nos podem prender em liberdade, porque teimamos em erguer muralhas e barreiras à volta do peito, desviamo-nos do essencial, estragamos a beleza do amor, duvidamos da força da amizade pura e generosa, entregamo-nos ao simplismo de relações que preenchem as nossas agendas carentes de sociabilidade generalizada e sem consequências, derrubamo-nos a nós mesmos na estrada que foi sonhada para nós, rumo a um infinito que nem sonhamos!
Querer tanto ao Outro e a cada outro! Querer tanto, mas tanto, que não saberíamos viver sem O ter e sem os ter; querer tanto, sempre mais do que somos capazes de dizer, mil vezes mais do que sabemos sequer dizer!
Porquê teimar na superficialidade dos afectos e na mediocridade das relações, divinas e humanas?! Porquê adiar indefinidamente a força invencível do coração e do amor que aí se gera a cada instante?! Porquê convencermo-nos (nunca seremos verdadeiramente capazes) de que podemos prescindir da ternura, da amabilidade, do afecto, da generosidade, que curam, que salvam, que libertam?!
Como afirmava S. João, quem não ama o outro que vê e diz amar a Deus que não vê, é mentiroso! E quanta compulsividade nessa mentira! Quanta teimosia balofa e oca!
O Amor é sempre mais do que eu sei dizer!
Mas o Amor é ainda aquilo que, dia após dia, me faz viver!

