terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

"Sempre mais do que eu sei dizer"

"Por mais que a vida nos agarre assim
Nos troque planos sem sequer pedir
Sem perguntar a que é que tem direito
Sem lhe importar o que nos faz sentir

Eu sei que ainda somos imortais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se o meu caminho for para onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes

É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu te sei dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer

Por mais que a vida nos agarre assim
Nos dê em troca do que nos roubou
Às vezes gogo e mar, loucura e chão
Às vezes só a cinza do que sobrou

Eu sei que ainda somos muito mais
Se nos olhamos tão fundo de frente
Se a minha vida for por onde vais
A encher de luz os meus lugares ausentes

É que eu quero-te tanto
Não saberia não te ter
É que eu quero-te tanto
É sempre mais do que eu te sei dizer
Mil vezes mais do que eu te sei dizer".


Esta fala-nos do Amor, de um Amor intenso, tal como o é, certamente, o Amor de Deus por cada um de nós; como o é, certamente, o amor humano quando vivido na sua íntegra e intensidade, na sua radicalidade e na sua beleza mais profundas.
Quantos "lugares ausentes" no nosso coração humano a precisarem ser preenchidos pela força do Divino, pela presença de Deus! Quantos sentimentos com traços de frugalidade, de ligeireza e de banalidade! Quantos afectos desordenados, interesseiros e ocos, pois que se negam à profundidade do coração e à exigência da doação!
Se a nossa vida for, tão simplesmente, pelos caminho por onde Deus vai, quão diferente seria esta mesma nossa vida, que renovado sentido faria o nosso peregrinar, tão longe iria o poder da nossa existência! Mas, porque fugimos ao amor, porque nos escondemos da verdade que realiza, porque nos envergonhamos dos laços que nos podem prender em liberdade, porque teimamos em erguer muralhas e barreiras à volta do peito, desviamo-nos do essencial, estragamos a beleza do amor, duvidamos da força da amizade pura e generosa, entregamo-nos ao simplismo de relações que preenchem as nossas agendas carentes de sociabilidade generalizada e sem consequências, derrubamo-nos a nós mesmos na estrada que foi sonhada para nós, rumo a um infinito que nem sonhamos!
Querer tanto ao Outro e a cada outro! Querer tanto, mas tanto, que não saberíamos viver sem O ter e sem os ter; querer tanto, sempre mais do que somos capazes de dizer, mil vezes mais do que sabemos sequer dizer!
Porquê teimar na superficialidade dos afectos e na mediocridade das relações, divinas e humanas?! Porquê adiar indefinidamente a força invencível do coração e do amor que aí se gera a cada instante?! Porquê convencermo-nos (nunca seremos verdadeiramente capazes) de que podemos prescindir da ternura, da amabilidade, do afecto, da generosidade, que curam, que salvam, que libertam?!
Como afirmava S. João, quem não ama o outro que vê e diz amar a Deus que não vê, é mentiroso! E quanta compulsividade nessa mentira! Quanta teimosia balofa e oca!
O Amor é sempre mais do que eu sei dizer!
Mas o Amor é ainda aquilo que, dia após dia, me faz viver!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

"Viagem"

"Gibraltar, onde os mares se entrecruzam..."
"Nós somos a forma bonita, completa, de se cantar
Nós somos a voz e a palavra que nunca vão acabar
Cantando e amando e vivendo
Com toda a vontade que é possível ter
Nós somos a forma bonita, completa, de se viver

Nós somos o ser extravasado que o nosso sentir nos dá
O mito complexificado em busca do que não há
Cantando e amando e vivendo
Com toda a verdade que é possível ter


Nós somos a forma bonita, completa, de se viver
Alguém completado na vida
Prolongado na morte que já ninguém tem
A partir do momento em que a forma bonita
Se encheu de uma essência qualquer de ser´


Nós somos a dor mais profunda que existe em todo o planeta
Mas somos também a alegria melhor que se inventa
Se alguém perguntar afinal
O que é que nós somos de tão lindo assim
A resposta é tão simples
Basta olhar pra vocês e pra mim

A partir do momento em que a forma bonita
Se encheu de uma essência qualquer de ser
Se alguém perguntar afinal
O que é que nós somos de tão lindo assim
A resposta é tão simples
Basta olhar pra vocês e pra mim".

Pediram-me que escrevesse sobre "a viagem"!
Uma viagem serve também para descobrir - e redescobrir - o que sou e quem somos.
Uma viagem dá-nos tempo suficiente para nos irmos despindo de velhas roupagens que o tempo, teimosamente, consegue vestir-nos!
Uma viagem oferece-nos aquela oportunidade de olhar com "outros olhos" para aquele que caminha, que sorri, que sonha, que chora, que teima, que deseja, que se esconde, que teme, que se dá, e entrega, bem ao nosso lado...
E sublinham-se cumplicidades, e acentuam-se sentimentos, e unem-se horizontes, e abraçam-se vontades, e amam-se corações...
Uma viagem retempera as forças físicas e psíquicas, rejuvenesce a alma e eleva o espírito, particularmente quando quem viaja connosco se reveste desse sentimento inigualável de se ser "alma gémea" na vontade de tudo fazer para que cada outro seja sempre o mais importante.
De facto, se quisermos e deixarmos, podemos ser "a forma bonita de se cantar", a forma bonita de se dizer, a forma bonita de se sonhar, a forma bonita de se ser. Somos "voz e palavra que não vão acabar" e "cantando, amando e vivendo" nós somos mais uns dos outros e por isso de Deus.
"Com toda a verdade" que é possível ter, na permanente redescoberta daquilo que o outro é, saboreando com espanto a singeleza e a limpidez de cada sorriso pelas coisas mais simples, uma viagem pode ser um abraço divino, um encontro com traços e marcas que o tempo jamais apagará...
E, na verdade, se um dia alguém perguntar o que tem uma viagem - ainda que breve - de tão lindo assim, a resposta não poderá ser outra senão: "A resposta é tão simples; basta olhar para eles e e para mim"!
Porque cada um de nós, nas diferenças de caminhos trilhados, de idades vividas, de horizontes experienciados, "a partir do momento em que a forma bonita se encheu de uma essência qualquer de ser", uma viagem, esta viagem, tem algo de único, de insubstituível, de "tão belo assim"!
Basta olhar para eles e para mim!
"Deixar-me olhar!"


"Olhar-te um pouco
Enquanto acaba a noite
Enquanto ainda nenhum gesto te magoa
E o mundo for aquilo que sonhares
Nesse lugar só teu

Olhar-te um pouco
Como se fosse sempre
Até ao fim do tempo, até amanhecer
E a luz deixar entrar o mundo inteiro
E o sonho se esconder

Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti

Enquanto dormes
Por um momento à noite
É um tempo ausente que te deixa demorar
Sem guerras nem batalhas pra vencer
Nem dias pra rasgar

Eu fico um pouco
Por dentro dos desejos
Por mil caminhos que são mastros e horizontes
Tão livres como estrelas sobre os mares
E atalhos pelos montes

Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti".


Uma outra canção que nos fala de Deus se lhe colocarmos a dimensão da fé; uma letra que nos pode ajudar a  reencontrar a vontade e o sentir de Deus a respeito do nosso próprio coração; palavras que nos segredam tanto, tudo, do que de mais terno o Céu nos pode dizer!
"No lugar só" meu, "no lugar só" nosso que é a nossa alma, como Deus quer estar, como Deus quer viver, numa paz que não se diz nem se escreve, não se canta nem se declama!
Nos lugares escondidos dos nossos medos, dos nossos vazios e solidões, sabe bem saber e sentir, crer e experimentar que Deus nos procura e deseja como se fossemos únicos, especiais, tão especiais.
Ele fica "um pouco" que seja desde que eu próprio lhe abra, escancare, a minha sempre tão pobre e frágil alma. Mas fica, porque me quer, me sonha, me abraça, como ninguém...
Nalgum lugar perdido em que algum de nós se encontre, seja geográfico, espiritual, existencial, Ele vai esperar sempre por cada um de nós... Maravilha das maravilhas. Espanto dos espantos. Ternura das ternuras. Paz de toda a paz...
Santo Domingo a todos..
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