quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Isso nos basta!"

“Olha pra mim
Deixa voar os sonhos
Deixa acalmar a tormenta
Senta-te um pouco aí
"Olha para mim
Deixa voar os sonhos..."
Olha pra mim
Fica no meu abrigo
Dorme no meu abraço
E conta comigo
Que eu estarei aqui
enquanto anoitece,
enquanto escurece
e os brilhos do mundo
cintilam em nós
enquanto tu sentes
que se quebrou tudo
eu estarei
sempre que te sentires só
Olha pra mim
Hoje não há batalhas
Hoje não há tristeza
deixa sair o sol
Olha pra mim
fica no meu abrigo
perde-te nos teus sonhos
e conta comigo”.

São palavras já conhecidas; termos que falam do amor; sentimentos que, com facilidade, consigo colocar no Coração de Deus, que me olha, deseja, chama e quer mais e mais d’Ele…
Quão diferente seria o mundo, o mundo dos nossos corações, se acreditássemos que Deus nos fala assim, na ternura e na simplicidade das palavras, sempre carregadas de sentimento, de compaixão, de proximidade, de abraço que não se extingue!
Um Deus que admite os meus sonhos, entende os meus medos, serena as minhas tormentas, me acolhe no Seu colo e no seu regaço, me pede n’Ele adormeça tranquilo, para lá das minhas batalhas e dos meus combates!
E quando a «noite» se abate sobre nós mesmos, e quando o «frio» intenta amedrontar-nos, e sempre que o «não sentido» procura vencer-nos, Ele está, «enquanto anoitece, enquanto escurece», «sempre que se quebrou tudo»!
Ficar no Seu abrigo, perder-se nos Seus sonhos – que hão-de um dia ser os nossos – e contar com Ele…
Que poderoso desafio, que belo programa de vida, que excelente segurança e horizonte para cada segundo de cada dia que recomeça…
Dormir no Seu abraço, permanecer no Seu abrigo, simplesmente ficar ali, onde Ele me olha, entende, abençoa e envia…
A amar, a amar sempre, a testemunhá-l’O sempre, no amor que colocamos nas coisas simples e banais da nossa vida. Porque o Seu abraço, o Seu regaço, por mais que escureça e anoiteça no esplendor do dia, vela por nós…
Deixar-se embalar por essas palavras, que são certeza duma presença invisível mas real, é paz que o mundo não dá, é força que os homens não têm, é vida em abundância que nada nem ninguém consegue oferecer. Porque vem de Deus, vem do Céu.

E isso basta. Só isso nos basta.

domingo, 30 de janeiro de 2011

"Bem Aventurados"

Quando para nós a felicidade se conquista com critérios de sucessos e êxitos particulares, eis que Deus vem «baralhar» esses conceitos e certezas para os propor algo de absolutamente distinto e provocador!
Não é fácil para os nossos ouvidos e os nossos corações escutar com solenidade e como definitivo as palavras do «Sermão da Montanha». «Felizes os pobres... felizes os que choram... felizes os humildes... felizes os misericordiosos... felizes os construtores da paz... felizes os puros de coração... felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça... felizes quando fordes caluniados e perseguidos por causa do Evangelho e vos acusarem de toda a espécie de mal»!
É, de facto, escandalosa, desconcertante, a proposta de Jesus!
Com facilidade a definimos como ultrapassada e utópica, como irrealista e desajustada aos novos tempos, como impossível e a necessária e urgente adaptação às novas realidades do homem contemporâneo!
E, no entanto, essas mesmas palavras continuam a ser a «delícia» de incontáveis corações que, sem medo, as adoptam como critério de vida, como «estrada» a percorrer, como ideal a abraçar!
Difícil? Certamente! Mas nunca o Senhor Jesus nos falou de facilidade, de ligeireza, de felicidades espontâneas e epidérmicas!
Resta-nos sempre a hipótese de escutar esse «Sermão da Montanha» com ouvidos renovados e corações purificados; podemos sempre acolher essa proposta como caminho de vida ou afugentá-la para bem longe da nossa existência a fim de nos entregarmos ao simplismo da auto-suficiência, à comunhão com os poderes e glórias terrenas alcançadas a custos perigosíssimos, à cumplicidade com as corrupções de maior ou menor densidade e consequência...
Uma verdade maior não podemos esconder: há mais de dois mil anos que estas palavras, esta proposta de vida, é apresentada e seguida, acolhida e amada, como profunda e verdadeira libertação! Há mais de dois mil anos que gente como nós se deixa transfigurar e rasga na História trilhos e traços que o tempo não consegue apagar! Simplesmente porque fundaram e assentaram os seus passos nos passos do Cordeiro! Gente que fica na História do Coração de Deus. E apenas essa importa; apena essa pauta o devir do próprio tempo.
Hoje, cada um de nós, pode escutar essas mesmas palavras; hoje cada um dos nossos corações pode acolher ese segredo guardado e partilhado por Deus: «Bem Aventurados»...
A decisão é nossa. Apenas nossa!
Os triunfos e sucessos, glórias e êxitos que o mundo gera em cada tempo, passsíveis de enganos, desilusões, solidões e cansaços ou uma outra glória e uma outra felicidade que advém do abraço que damos - ou não - à humildade e à simplicidade, à escolha da verdade e da justiça, ao combate pela fraternidade e à construção da paz.
O prémio, é certo, no coração do mundo, pode ser a perseguição e as lágrimas derramadas, as calúnias e a difamação, o «deserto» e os «dedos apontados» como tribunais de novas inquisições sociais ou eclesiásticas! Mas, e ao mesmo tempo, outra «sentença» se debruça sobre nós quando ousamos a «loucura de Deus» em detrimento da «sabedoria dos homens»: «Bem Aventurados»!
Que Deus nos ajude a acreditar nesse Seu segredo mais que nas promessas gloriosas da mesquinhez contemporânea que, não raras vezes brota do coração da própria Igreja!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

“Vinde comigo”

No início de um novo Tempo Comum, fomos ontem desafiados, de novo, à mais extraordinária das aventuras: «Vinde comigo, e farei de vós pescadores de homens»!
Ousemos «entrar» na «cena» proposta pela narração do Evangelho…
Jesus de Nazaré, desconhecido ainda de todos os homens, caminha pelas margens do lago da Galileia. No Seu Coração o projecto do Reino de Deus, o desejo de oferecer a salvação a todos os homens, a ânsia de partilhar a eternidade com cada vida humana…
Pelo caminho encontra dois homens, irmãos, simples e rudes pescadores. Homens com uma história pessoal concreta, decerto com desejos próprios de felicidade, com projectos definidos, com horizontes de vida bem delineados.
Eis que, de repente, sem o esperarem, diante de si e das suas vidas, Esse Homem de Nazaré, que não conheciam, que jamais haviam escutado, que nunca imaginaram encontrar… E imediatamente lhe é lançado ao mais fundo da alma um apelo tão desconcertante quanto inesperado: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens»!
Diz o texto sagrado que eles se ergueram e imediatamente seguiram Jesus! Nada perguntam ou questionam! Nada regateiam ou duvidam! Não se assustam ou ignoram Esse Caminhante do lago da Galileia! Pronta e simplesmente ousam seguir Aquele que os desinstá-la, os desafia e interpela!
Já não lhes interessam as suas «verdade» pessoais, os seus anseios próprios, os seus sonhos particulares! Tudo secundarizam, tudo relativizam, num acto imenso e tremendo de fé, para responder decididamente a essa «voz que não se impõe mas que sentem bem lá dentro» dos seus renovados corações!

Não perguntam «quem és», «que significa ser pescador de homens», «que temos a ganhar», «que temos a perder», «quanto tempo isso significa»… Não rejeitam nem fogem ao apelo divino afirmando que «não têm tempo», que «não sabem falar», que «não possuem talentos», que «não têm capacidades»…
Impressionantemente, deixam a sua história, a sua vida, as suas verdades, as suas certezas e amarras e, num «salto imenso» seguem Jesus Cristo!
Jamais saberemos o que conversaram após esse apelo lançado pelo Mestre; jamais descobriremos que sonhos ou projectos, que palavras e afectos, que sentimentos ou expectativas foram semeadas naqueles dois corações de simples pescadores! Sabemos uma verdade, a mais importante, a mais bela, a essencial: tornaram-se os dois primeiros apóstolos do Senhor!
Sentiram-se e souberam-se de tal forma amados, deixaram-se de tal maneira atrair e arrebatar pelo Coração de Cristo que nunca mais d’Ele se separaram! Nunca mais O deixaram! Nunca mais de afastaram d’Esse Divino peregrino que os cativara e arrebatara nas margens do lago da Galileia!...
Por Ele, pelo Seu Evangelho, pelo Reino de Deus, seriam ultrajados, perseguidos, desprezados e mortos! Mas o amor a Deus, apresentado de forma sublime em Jesus Cristo seria, até ao fim, o ideal das suas vidas, «o mastro grande» que os faria «velejar» até ao derramamento do próprio sangue!

Mais adiante, Jesus encontra mais dois pescadores, também irmãos, que juntamente com o pai intentam consertar umas redes velhas para a faina. Também a esses corações é lançada a mesma semente de inquietação e de ousadia: «Vinde comigo; farei de vós pescadores de homens»!
Deixaram as redes, a barca, o pai, e seguiram Jesus!
Também esta uma resposta pronta, abandonada, confiante, decidida! Também essas vidas se deixaram arrebatar em absoluto por Esse «estranho» «arrebatador» de corações! Acreditaram, perceberam, que a sua missão, a sua pesca, haveria de ser outra! Descobriram que não valia mais a pena tentarem consertar redes sem conserto! Que as redes que necessitavam para se tornarem pescadores de homens eram de outra ordem: a do coração, a da verdade, a da humildade, a do amor!
Quatro vidas, quatro corações transfigurados, apaixonados, seduzidos, por Jesus Senhor! Os primeiros que ousaram dizer «sim» ao Projecto sempre novo denominado Evangelho…

Se ousássemos fazer a «árvore genealógica» da nossa fé iríamos desaguar a estes quatro homens, a estes quatro corações. Tanto lhes devemos; gratidão só pode ser a nossa atitude!
Porque depois deles tantos outros corações, incontáveis outros corações se deixaram também enamorar e arrebatar por Esse Pescador Divino do Mar da Galileia. Até chegar a nós essa mesma é, essa mesma paixão, esse mesmo ardor pela Boa Nova de Cristo.
E a seguir a nós outros terão de se aventurar nesse «Mar adentro» do amor de Deus. Precisam apenas que sejamos nós os «pescadores» deste tempo que os sabem atrair para Cristo e para a Sua Igreja; precisam apenas que lhes lancemos a redes da ternura e da misericórdia, as redes da caridade e da justiça, as redes da transparência e da presença consoladora… numa palavra, as redes do amor gratuito, verdadeiro, puro, libertador.
Que e como temos nós sido «pescadores de homens»? Como temos nós respondido e correspondido ao permanente apelo de Cristo «Vinde comigo»? Que «redes» temos nós utilizado como membros da Igreja? «Discutimos», «regateamos», «duvidamos», diante dos apelos que Cristo e a Igreja nos fazem ou, ao invés, respondemos prontamente a cada proposta que nos vem de Deus?!

Deixamos as «redes velhas e sem conserto» que nada nem ninguém conseguem atrair para Cristo ou permanecemos irredutíveis presos a elas, impotentes e incapazes de entrar «mar adentro» ao encontro da novidade que Deus nos reserva em cada dia?

Queridos amigos, quantos «nãos» temos dado ao Senhor! Quantos adiamentos, quantas preguiças, quantos comodismos, nas nossas vidas que travam a vinda de mais e mais homens e mulheres para o Coração de Deus!

Que diferença abissal entre as respostas e atitudes daqueles primeiros quatro corações e os nossos! Como urge uma mudança amorosa, confiante, abandonada, a Cristo Jesus! Como este nosso tempo necessita de homens e mulheres valentes que ousem fazer do Amor o «mastro grande a sua vida», o «Ideal» que nos move e guia a cada segundo da nossa existência!

«Vinde comigo» diz-nos, de novo Jesus!
De mãos dadas, de corações irmanados, avancemos nesta aventura divina de sermos pescadores de homens!
Mesmo que não fisicamente convosco, garanto a cada um a minha decisão de teimar seguir o meu Senhor nesta Igreja que é a nossa. Mesmo «à distância», mesmo quando custa e precisamente porque custa, estou convosco decidido a percorrer essa estrada que nos leva ao Céu…
Mesmo quando dói e arde a aventura da nossa fidelidade, garanto-vos a minha unidade ao vosso coração... Mas sem estar, estou; sem estar amo-vos; sem estar, sirvo-vos; sem estar peço-vos a oração e a intendência pela minha santidade…
E juntos, escutemos sempre de novo: “Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens”…
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