terça-feira, 30 de novembro de 2010

"Caminhos..."

"Levo-te comigo para não te perder"
Daqui a algumas breves horas estarei a partir para uma experiência, repetida e, porém, sempre nova: caminhar a pé até Fátima, Altar do mundo...
Serão três dias de caminho, marcados com a "rudeza" do silêncio neste nosso tempo de "sons" e de "barulhos"; marcados com a indigência desejada de ser capaz de me alimentar com  pão e água, símbolos da pequenez e de despojamento nesta sociedade de consumo tão desordenado quão desenfreado; marcados com a intensidade da oração e da contemplação, buscando abstrair de acessórios e banalidades que não raras vezes asfixiam a alma e sufocam os corações.
Caminhar, com frio ou calor, vento ou chuva, tormentas ou tempestades, mas caminhar, a fim de me deixar encontrar por Deus que me quer mais d'Ele, mais santo!
Mas não, não vou sozinho.
Neste início de Advento quero levar comigo este Estoril que me foi confiado; quero levar cada coração, cada família, cada sonho e cada dor, cada medo e cada esperança. E em cada passo, com maior ou menor dificuldade, entregar, oferecer, confiar, cada homem e mulher, jovem ou criança, que são o meu "eu", a razão do meu "ser" aqui e agora.
Sinto e pressinto que precisamos todos ser mais de Deus; que precisamos de rezar mais, muito mais; que urgem corações distintos, grandes, ricos, santos; que precisamos de re-equacionar a direcção dos caminhos que trilhamos; que precisamos de repensar prioridades, atitudes, desejos, certezas e verdades; que precisamos de aprender e reaprender o que significa "verdade", "perdão", "partilha", "transparência", "serviço", "frontalidade", "amor"...
Também por isso me predisponho a caminhar; também por isso quero fazer "deserto", não como quem foge ou se esconde mas, ao contrário, como quem busca o que vale mais, o essencial, o fundamental, e se sacia nos rios da simplicidade e da paz, da limpidez e da liberdade.
Como alguém canta, "levo-te comigo para não te perder"!
Queiras ou não, sintas que precisas ou não, fosse esse o teu desejo ou não, "levo-te comigo para não te perder" ó Estoril!
Para te entregar, de novo, como se fosse a primeira vez, para te consagrar, de novo, ao Coração Imaculado d'Aquela que nos doou o seu próprio filho.
E quando - eu sei que será assim - quando eu conseguir fitar o meu olhar no olhar da Mãe de Deus e me escorrerem as lágrimas pelo rosto, então sentirei, de novo, que não foram em vão os meus passos, os meus caminhos...
Porque tudo, mas absolutamente tudo, que é vivido por amor, vale sempre a pena ser vivido...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

De novo, Advento!

De novo, Advento!
Tempo favorável para recentrar sentimentos, atitudes, desejos, prioridades... tempo especial para repensar a verdade da fé que afirmamos possuir e ousar direccionarmo-nos rumo a Belém, essa «terra do espanto» e da «graça», esse «monte de vida e de verdade» que nos ofereceu a plenitude do ser.
De novo, Advento!
Oportunidade para «acordarmos dos sonos» tantos que nos submergem em mediocridades e «nadas» conseguindo somente a rotina asfixiante de um peregrinar rumo a lado nenhum!
Importa descobrir a novidade que vem; importa ousar a admiração da ternura de um Deus que Se faz gente, Se faz História, Se faz Vida bem no coração da nossa própria vida.
As nossas pressas e os nossos «stresses» desvirtuam a realidade e ofuscam a Luz que teima irromper nas noites da nossa existência. O ritmo do nosso tempo consegue distrair-nos do essencial. A auto-suficiência que nos domina sufoca essa capacidade tão bela e única que temos de ser, simplesmente, certeza de um Amor que não passa.
Diante de nós, umas breves quatro semanas para reaprendermos a harmonia e a paz de quem deseja fazer do amor e da verdade a bandeira dos seus passos.
«Mesmo que a vida mude os nossos sentidos e o mundo nos leve para longe de nós, e o tempo pareça perdido e tudo se desfaça», temos de guardar cada lugar que é d'Ele, e olhar, embevecidos, para o que significa uma Criança deitada em panos numa pobre e despojada manjedoira!
Porque o nosso olhar e o nosso coração estão habituados à espectacularidade de holofotes inebriantes, porque os nossos olhos se regalam sempre que as «palmas» e os «pódios» se erguem diante de nós mesmos, urge ainda mais a busca desse tempo e desse espaço que nos ensina a admirar, e a desejar, e  a amar, o silêncio, a obscuridade, o deserto, onde Deus Se revela e nos aponta o caminho de uma vida que nao engana nem se engana...
De novo, Advento. 
De novo, o apelo e o desafio a deixar-me ser homem de verdade. Onde Deus tem lugar bem no centro do meu coração. Onde Deus me maravilha e «embriaga» pela força da Sua fragilidade, pelo poder do Seu despojamento, pela riqueza da Sua pobreza, pela eternidade da Sua presença..
Vem, Senhor, e salvai-me.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

"Lugares de história e de vida"

Estou uns dias fora da paróquia; vim a Cracóvia, Polónia, a um lugar e a um "tempo" que têm um lugar especial na minha história e no meu coração...
Terra e história de João Paulo II. Espaço e tempo de uma vida que "deram vida ao mundo". Lugares que são raízes de tantas outras outras histórias e de momentos que incontáveis corações guardarão, agradecidos, nos seus próprios corações.
A chuva e o frio intensos que se fazem sentir, o cinzento dos dias não consegue ofuscar o brilho e a luz interior de quem trilha estes mesmos caminhos, de quem assume a beleza da história de fé que também aqui foi escrita com a vida, com entrega e generosidade, com esperança, perseverança e fé desmedidas.
Caminhando por ruas e vielas, entrando e abraçando o silêncio dos templos, agarrando a força da história aqui tão solenemente expressa e vivida, sublinho e aprendo a fecundidade da minha própria fé e acolho o perene desafio que permanentemente é lançado aos corações de cada tempo: "Faz-te ao largo"!
O ritmo da vida quotidiana, as pressas da contemporaneidade, o "stress" tão profícuo deste nosso tempo, precisam ser contrariados pela novidade e pelo espanto, pela surpresa e pela admiração de novas realidades e da aprendizagem sempre renovada do "belo" do "simples" da "ousadia" e do "sonho" tão características destes mesmos lugares.
Aqui tenho presentes todos aqueles que me estão confiados; aqui relembro os muitos corações que agora são a minha própria história. Aqui rezo por quantos são meus companheiros de viagem neste tempo e nesta hora...
Longe, mas sempre perto. Distante mas tão próximo...
Um abraço amigo, uma comunhão sincera, uma presença "distante" que é, afinal, tão próxima...
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