quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"Que queres que Eu te faça?"

Após uns dias de "silêncio" partilho de novo algum sentir e viver da alma que me habita...
Os dias são tremendamente longos, marcados com a tensão e paz que a própria vida envolve; os caminhos a percorrer mostram-se não raras vezes tortuosos e íngremes, difíceis e, simultaneamente, esperançosos.
O tempo, interior e exterior, nem sempre se identificam, entrecruzam-se com sonhos e vontades distintas e ausentes, com apelos e desafios ousados e monótonos, com determinações convictas e epidérmicas.
Mas Deus teima sempre em fazer-nos erguer o olhar.
Deus apela a cada instante a uma aventura de confiança e de entrega, de paixão desmedida e incondicional.
Deus provoca, segundo após segundo, a uma dedicação irrenunciável, a uma obediência imaculada, a um serviço abnegado.
E quando se ergue o olhar da alma e do coração, sempre que ousamos erguer a cabeça, não podemos deixar de nos deparar com uma Cruz e nela O Crucificado de braços abertos e de Coração trespassado. Aí, percebemos essa eterna "fonte" de amor e de paz, esse "manancial" de vida verdadeira e de eternidade que se experiencia já e agora.
As tempestades ofertadas pelo mundo conseguem sempre fazer balançar - mesmo assustar - a barca em que entrámos; os ventos às vezes tão fortes e imprevisíveis empurram para rotas e destinos jamais imaginados; por outro lado, a falta dele - desse vento e desse sopro - ajudam e conseguem uma sonolência que perturba, que amolece, que distrai e não desassossega!
São as margens da banalidade e as âncoras "seguras" da rotina, são os portos do comodismo e as malhas da mesquinhez que desejam, tão simplesmente, convencer-nos que nos tornamos pescadores de homens não saindo da pacatez e da ligeireza da nossa própria humanidade!
Mas a barca é de Deus; os mares pertencem-Lhe, a outra margem espera por nós e nela O Senhor da Vida.
Importa o caminho e a decisão de o abraçar.
Importa a audácia da fidelidade e o mergulhar em águas mais ou menos conhecidas.
Importa o perder medos e aflições diante de "ondas" e "vagas" nem sempre provenientes do "mar" do Evangelho nem da "Água viva que jorra para a eternidade" que se abatem sobre nós!
A certeza da fé impele a ir sempre mais além, mais longe, mais alto!
Ainda que seja decisivo multiplicar os esforços, mesmo que nos pareça humanamente inviável, os "velhos do Restelo" terão sempre os dias contados e a certeza do fracasso das suas falácias e dos seus "gritos" desencorajadores.
Hoje - como "ontem" ao cego de Jericó - Jesus pergunta-nos: "Que queres que Eu te faça?".
E nós apenas podemos e devemos responder: "Que eu veja, Senhor"!
Que nós vejamos a Luz de Deus na noite dos homens, o esplendor do Céu nas escuridões da humanidade, o brilho da eternidade nos cinzentos do efémero e do acidental que tantos abraçam como definitivo!
Que nós vejamos a imensidão da vida e da verdade quando alguns intentam apenas a valorização exterior e a cosmética do que se vê.
Que paz quando deixamos que Deus nos segrede: "Que queres que Eu te faça"?

sábado, 30 de outubro de 2010

"Desce depressa!"

Impressionante este convite!
Porque interpela, porque desassossega, porque provoca, porque incomoda!
Um dia foi a Zaqueu que Jesus dirigiu estas palavras;


Descer para subir na Vida verdadeira...
um homem «escondido» e «medroso» diante daquilo que o Mestre lhe poderia pedir, revelar, propor!
Percebia-se nele uma certa inquietude, uma ansiedade declarada!
Mas empoleirado no sicómero bastar-lhe-ia ver Jesus ao longe, quando passasse pelo caminho! Não haveria diálogo, encontro, confronto, troca de olhares, possibilidade de relação!
Mas para Jesus não é assim!
Para Deus não basta a superficialidade ou a ligeireza!
Para Deus importa, precisamente, esse olhar trocado, penetrante, sedutor, arrabatador, irrecusável. Para Deus aquilo que vale será sempre a verdade e a beleza do coração e nunca, e jamais, a «cosmética» da aparência, da atitude, da palavra ou do sentir!
Por isso «arrasa» com as determinações de Zaqueu: «Desce depressa que Eu tenho de ficar em tua casa"!
Disse-o a Zaqueu e hoje a cada um de nós.
A quantos nos sabemos e sentimos empoleirados em «sicómeros» simplesmente para ver Deus passar, para ver o Homem passar, para ver a vida passar!
E é preciso descer, é urgente descer!
Deixar de estar empoleirado nas «árvores» da auto-suficiência e do orgulho, descer das «árvores» da inveja e da maledicência, descer depressa das «árvores» da presunção e da mediocridade, da aparência e do fingimento, da mentira e da difamação!
Em cima do sicómero não se daria o verdadeiro e profundo encontro! Jesus precisou, quis, pediu, para entrar naquela casa, naquela vida, naquele coração. E porque Zaqueu permitiu, «a salvação entrou» na sua existência.
Em cima, empoleirados nos «sicómeros» da falsidade e da sobranceria, «escondidos» na piedade piegas e espiritualizante, anestesiada e falaciosa, apenas se consegue «ver» a Verdade e a Vida, à distância, deixando que se afaste de nós essa mesma salvação que entrou na vida de Zaqueu!
Não façamos ouvidos surdos: «Desce depressa"!
Ousa o desafio; acorda desse sono que te inebria; deixa desassossegar esse coração amordaçado, e permite que Deus te salve!
"Desce depressa"!
Percebe que é para ti essa palavra; crê que Deus tem um projecto maior, imensamente maior que a mesquinhez do momento presente, que o endeusamento desse sentir desordenado.
Descer, querer descer, para subir na vida verdadeira, na verdade que liberta, na caridade que sara, no amor que salva.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"Lugares de Beleza"


"... das vossas vidas lugares de beleza"
Reconheço como programa permanente do meu ser e do meu sentir cristão essas palavras inesquecíveis do Papa Bento XVI aos homens e mulheres da cultura em Portugal: "Fazei coisas belas mas, sobretudo, fazei das vossas vidas luagres de beleza":
Fazer da minha vida um lugar, ou melhor, o lugar, da beleza que Deus é.
Programa, projecto, desafio, ambicioso, é certo. Mas também e, simultaneamente, realizador, pleno, ousado, desafiante. Caminho a percorrer não isento de dificuldades e obstáculos mas, ao mesmo tempo, catalisador da minha realização enquanto pessoa, enquanto crente, enquanto discípulo de Jesus Cristo.
É importante fazermos coisas belas; mas é mais significativo sermos «lugares da Beleza» que Deus é.

É desejável que os nossos talentos e as nossas capacidades sejam capazes de se traduzirem em coisas belas: escrever, desenhar, cantar, tocar, jogar... Mas é muito mais derradeiro e marcante para este nosso tempo e este nosso mundo que a nossa vida, o nosso coração, seja lugar da Beleza que Deus é.
A Nova Evangelização passará, seguramente, pelas coisas belas que possamos fazer, pelo belo que possamos mostrar como fruto das nossas mãos, trabalhos, esforços. Mas falaremos bem melhor da fé e da esperança que nos anima se se encontrar no nosso coração (atitudes, desejos, palavras) o rosto belo que Deus tem, que Deus é!
Belas palavras ou textos, belos quadros ou pinturas, belas obras ou artes, mostrarão apenas uma «sombra» da fé que temos; um coração cheio de entrega e dedicação, pleno de ternura e de compaixão, repleto de perdão e de aceitação da diferença de cada outro, capaz de pulsar ao jeito do coração de Cristo, conseguirá muito mais rebentar muralhas e barreiras, dúvidas e desconfianças, medos e inseguranças, tantas e tão diversificadas, que assolam o «coração do mundo» contemporâneo.
Ser lugar da Beleza de Deus.
Caminho sempre novo e desafiante, trilho e horizonte que bem podíamos abraçar como Povo e Igreja que é lançada a cada tempo para espelhar essa «Beleza que salva o mundo»: Jesus Cristo. 
Web Analytics