sábado, 30 de outubro de 2010

"Desce depressa!"

Impressionante este convite!
Porque interpela, porque desassossega, porque provoca, porque incomoda!
Um dia foi a Zaqueu que Jesus dirigiu estas palavras;


Descer para subir na Vida verdadeira...
um homem «escondido» e «medroso» diante daquilo que o Mestre lhe poderia pedir, revelar, propor!
Percebia-se nele uma certa inquietude, uma ansiedade declarada!
Mas empoleirado no sicómero bastar-lhe-ia ver Jesus ao longe, quando passasse pelo caminho! Não haveria diálogo, encontro, confronto, troca de olhares, possibilidade de relação!
Mas para Jesus não é assim!
Para Deus não basta a superficialidade ou a ligeireza!
Para Deus importa, precisamente, esse olhar trocado, penetrante, sedutor, arrabatador, irrecusável. Para Deus aquilo que vale será sempre a verdade e a beleza do coração e nunca, e jamais, a «cosmética» da aparência, da atitude, da palavra ou do sentir!
Por isso «arrasa» com as determinações de Zaqueu: «Desce depressa que Eu tenho de ficar em tua casa"!
Disse-o a Zaqueu e hoje a cada um de nós.
A quantos nos sabemos e sentimos empoleirados em «sicómeros» simplesmente para ver Deus passar, para ver o Homem passar, para ver a vida passar!
E é preciso descer, é urgente descer!
Deixar de estar empoleirado nas «árvores» da auto-suficiência e do orgulho, descer das «árvores» da inveja e da maledicência, descer depressa das «árvores» da presunção e da mediocridade, da aparência e do fingimento, da mentira e da difamação!
Em cima do sicómero não se daria o verdadeiro e profundo encontro! Jesus precisou, quis, pediu, para entrar naquela casa, naquela vida, naquele coração. E porque Zaqueu permitiu, «a salvação entrou» na sua existência.
Em cima, empoleirados nos «sicómeros» da falsidade e da sobranceria, «escondidos» na piedade piegas e espiritualizante, anestesiada e falaciosa, apenas se consegue «ver» a Verdade e a Vida, à distância, deixando que se afaste de nós essa mesma salvação que entrou na vida de Zaqueu!
Não façamos ouvidos surdos: «Desce depressa"!
Ousa o desafio; acorda desse sono que te inebria; deixa desassossegar esse coração amordaçado, e permite que Deus te salve!
"Desce depressa"!
Percebe que é para ti essa palavra; crê que Deus tem um projecto maior, imensamente maior que a mesquinhez do momento presente, que o endeusamento desse sentir desordenado.
Descer, querer descer, para subir na vida verdadeira, na verdade que liberta, na caridade que sara, no amor que salva.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"Lugares de Beleza"


"... das vossas vidas lugares de beleza"
Reconheço como programa permanente do meu ser e do meu sentir cristão essas palavras inesquecíveis do Papa Bento XVI aos homens e mulheres da cultura em Portugal: "Fazei coisas belas mas, sobretudo, fazei das vossas vidas luagres de beleza":
Fazer da minha vida um lugar, ou melhor, o lugar, da beleza que Deus é.
Programa, projecto, desafio, ambicioso, é certo. Mas também e, simultaneamente, realizador, pleno, ousado, desafiante. Caminho a percorrer não isento de dificuldades e obstáculos mas, ao mesmo tempo, catalisador da minha realização enquanto pessoa, enquanto crente, enquanto discípulo de Jesus Cristo.
É importante fazermos coisas belas; mas é mais significativo sermos «lugares da Beleza» que Deus é.

É desejável que os nossos talentos e as nossas capacidades sejam capazes de se traduzirem em coisas belas: escrever, desenhar, cantar, tocar, jogar... Mas é muito mais derradeiro e marcante para este nosso tempo e este nosso mundo que a nossa vida, o nosso coração, seja lugar da Beleza que Deus é.
A Nova Evangelização passará, seguramente, pelas coisas belas que possamos fazer, pelo belo que possamos mostrar como fruto das nossas mãos, trabalhos, esforços. Mas falaremos bem melhor da fé e da esperança que nos anima se se encontrar no nosso coração (atitudes, desejos, palavras) o rosto belo que Deus tem, que Deus é!
Belas palavras ou textos, belos quadros ou pinturas, belas obras ou artes, mostrarão apenas uma «sombra» da fé que temos; um coração cheio de entrega e dedicação, pleno de ternura e de compaixão, repleto de perdão e de aceitação da diferença de cada outro, capaz de pulsar ao jeito do coração de Cristo, conseguirá muito mais rebentar muralhas e barreiras, dúvidas e desconfianças, medos e inseguranças, tantas e tão diversificadas, que assolam o «coração do mundo» contemporâneo.
Ser lugar da Beleza de Deus.
Caminho sempre novo e desafiante, trilho e horizonte que bem podíamos abraçar como Povo e Igreja que é lançada a cada tempo para espelhar essa «Beleza que salva o mundo»: Jesus Cristo. 

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

"Mãos erguidas"

Como outrora Moisés, que de mãos erguidas ao Alto assegurava o caminho do povo de Israel, assim hoje são as nossas mãos erguidas que sustentarão o caminho do mundo e da Igreja contemporâneas.
Como ontem aqueles braços levantados em prece e confiança, também agora precisamos de levantar os nossos a fim de permanecermos fiéis ao Evangelho do Reino que dizemos acreditar.
Quando «ontem» desfaleciam os braços de Moisés o resultado era o retrocesso do caminho percorrido, a perca no combate pela chegada à Terra Prometida, o desalento e a angústia no Povo da Aliança, no «hoje» e no «agora» da nossa peregrinação, sempre que cruzamos os braços, sempre que deixamos desfalecer ou amolecer a nossa vida de oração, o nosso espírito de piedade, os resultados não serão diferentes: retrocederemos na «estrada» da Vida verdadeira e em abundância que Deus tem para nos oferecer!
Quando rezar não é prioridade, sempre que adiamos o tempo da intimidade com Aquele que nos pode dar a paz, cada vez que trocamos "o eterno pelo instante", sucumbimos com demasiada facilidade na aventura divina de sermos sal e luz desta desorientada humanidade.
Sem oração, sem diálogo amoroso, confiante, abandonado, fiel, com o Senhor da Vida, poderemos até fazer, escrever, dizer, coisas belas; unidos a Cristo e a Cristo Crucificado, seremos, verdadeiramente, lugares da Beleza que Deus é. Aliás, apenas na medida das nossas mãos erguidas ao Céu, conseguiremos alcançar aquela margem outra a que somos desafiados chegar!
Só mãos erguidas e dadas ao Essencial poderão sustentar esta errante e anestesiada sociedade.
Apenas mãos levantadas ao Alto conseguirão manter a luminosidade própria da Igreja que Jesus sonhou e que havemos de edificar.
É verdade que já acontecem coisas belas na nossa vida, na Igreja, na História; mas não é menos verdade que poderíamos ser muitíssimo mais esses lugares de Beleza que somos desafiados a ser. Bastaria um pouco mais de oração. Um pouco mais de tempo dedicado Àquele que criou o mundo. Um espaço mais alargado para Quem nos entrega a Eternidade.
De mãos erguidas, de mãos dadas ao Céu, faremos o mundo experimentar a beleza da Igreja, tantas vezes obscurecida e desvirtuada, enegrecida e deformada, simplesmente porque andamos de «mãos a abanar», de «braços cruzados» quando a nossa missão será sempre aquela de Moisés: mãos erguidas para vencermos o bom combate da fé.
Se assim não acontecer, caminharemos para trás, perderemos o rumo do nosso peregrinar, sucumbiremos diante do peso do cada tempo.
De mãos erguidas, em prece e adoração, em louvor e gratidão, por tanto e por tudo, a vitória da Vida verdadeira está assegurada...
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