segunda-feira, 18 de outubro de 2010

"Mãos erguidas"

Como outrora Moisés, que de mãos erguidas ao Alto assegurava o caminho do povo de Israel, assim hoje são as nossas mãos erguidas que sustentarão o caminho do mundo e da Igreja contemporâneas.
Como ontem aqueles braços levantados em prece e confiança, também agora precisamos de levantar os nossos a fim de permanecermos fiéis ao Evangelho do Reino que dizemos acreditar.
Quando «ontem» desfaleciam os braços de Moisés o resultado era o retrocesso do caminho percorrido, a perca no combate pela chegada à Terra Prometida, o desalento e a angústia no Povo da Aliança, no «hoje» e no «agora» da nossa peregrinação, sempre que cruzamos os braços, sempre que deixamos desfalecer ou amolecer a nossa vida de oração, o nosso espírito de piedade, os resultados não serão diferentes: retrocederemos na «estrada» da Vida verdadeira e em abundância que Deus tem para nos oferecer!
Quando rezar não é prioridade, sempre que adiamos o tempo da intimidade com Aquele que nos pode dar a paz, cada vez que trocamos "o eterno pelo instante", sucumbimos com demasiada facilidade na aventura divina de sermos sal e luz desta desorientada humanidade.
Sem oração, sem diálogo amoroso, confiante, abandonado, fiel, com o Senhor da Vida, poderemos até fazer, escrever, dizer, coisas belas; unidos a Cristo e a Cristo Crucificado, seremos, verdadeiramente, lugares da Beleza que Deus é. Aliás, apenas na medida das nossas mãos erguidas ao Céu, conseguiremos alcançar aquela margem outra a que somos desafiados chegar!
Só mãos erguidas e dadas ao Essencial poderão sustentar esta errante e anestesiada sociedade.
Apenas mãos levantadas ao Alto conseguirão manter a luminosidade própria da Igreja que Jesus sonhou e que havemos de edificar.
É verdade que já acontecem coisas belas na nossa vida, na Igreja, na História; mas não é menos verdade que poderíamos ser muitíssimo mais esses lugares de Beleza que somos desafiados a ser. Bastaria um pouco mais de oração. Um pouco mais de tempo dedicado Àquele que criou o mundo. Um espaço mais alargado para Quem nos entrega a Eternidade.
De mãos erguidas, de mãos dadas ao Céu, faremos o mundo experimentar a beleza da Igreja, tantas vezes obscurecida e desvirtuada, enegrecida e deformada, simplesmente porque andamos de «mãos a abanar», de «braços cruzados» quando a nossa missão será sempre aquela de Moisés: mãos erguidas para vencermos o bom combate da fé.
Se assim não acontecer, caminharemos para trás, perderemos o rumo do nosso peregrinar, sucumbiremos diante do peso do cada tempo.
De mãos erguidas, em prece e adoração, em louvor e gratidão, por tanto e por tudo, a vitória da Vida verdadeira está assegurada...

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"Sempre Teu! Todo Teu!"

Olho para trás e o que é que vejo?
Revisito o meu passado e o que encontro?
Viajo no tempo e na história da minha vida e o que descubro?
Tão pouco, tantos nadas, tantos nãos!
Tantas portas que eu fechei, diante dos incontáveis sinais que Tu, meu Deus, me enviavas!
Tantos silêncios quando me desafiavas a dialogar com o Teu Coração!
Tantas indisponibilidades sempre que me pedias Te dissesse um simples «Sim»!
Tantas vergonhas e cobardias, tantas misérias e infidelidades diante da Tua proposta de Amor e de Vida Verdadeira!...
Mas forçasTe e conseguisTe entrar, Senhor!
Como Zaqueu, como aquela mulher samaritana, como Mateus, como na vida de tantos e tantos outros, nas minhas estradas p’ra Damasco, nos meus caminhos de Emaús, devastados pelos desalentos do meu peregrinar, foste sol que iluminou todas as minhas sombras de ser!
Foste, meu Senhor, a minha sarça ardente, foste a voz que me chamou…
Pareceu tardar, pareceu uma eternidade de sem sentidos, pareceu um fim definitivo!
Mas forçasTe e conseguisTe entrar, Senhor!
És a voz que me chama, és o som que me embala, és a paz que me sossega, és a melodia que me adormece, és a seiva que me revigora, és a luz que me ilumina…
Sim, Senhor, ao encontrar-Te, eu descobri quem sou!
Ao encontrar-Te eu aprendi a viver verdadeiramente!
Ao encontrar-Te eu percebi como sou!
Ao encontrar-Te eu acreditei que podia ser melhor, que devia ser maior!
E eu quero, Senhor!
Eu quero ser maior; eu quero ser melhor; quero ser corpo do Teu Corpo, sangue do Teu Sangue, rio do teu Mar, vida da Tua Vida.
Eu quero aprender a dizer «Sim» quando o mundo me ensina e convence a dizer-Te «Não»!
Eu quero apenas um coração onde caiba esse Teu Coração trespassado!
Eu quero somente a paz que me ensine os trilhos a seguir quando me perco nas encruzilhadas que a vida me oferece!
Eu desejo só ser Teu!
Sempre Teu!
Todo Teu!
Com essa certeza indestrutível: só Tu sabes mesmo arrebatar, só Tu, meu Senhor, só Tu Estrela e guia do meu cais, só Tu Senhor do perdão e profeta da paz…
Ser Teu!
Sempre Teu!
Todo Teu!

sábado, 2 de outubro de 2010

"Estoril"

Era noite, e sentia um peso enorme sobre os ombros...
Pela primeira vez, pisava o altar da igreja; no silêncio e diante da presença misteriosa mas real de Jesus no Sacrário, apenas Lhe perguntava: «E agora, Senhor?».
Havia professado a fé da Igreja diante de uma nova Comunidade à qual tinha sido envidado a servir; havia dito que sim, que aqui quereria ser imagem do Bom Pastor, nessa missão única e arrebatadora de entregar cada dia, cada hora, minuto e segundo do meu ser.
O desconhecido banhava-me a alma e o coração.
A incerteza abraçava o meu sentir.
A paz que irradiava do Sacrário sossegava o meu interior...
E passaram quatro anos.
Com tantas histórias e momentos, com tantos sorrisos e sonhos, com lágrimas e desalentos, com projectos e esperanças, com soluços e gargalhadas...
«E agora, Senhor?» teimo em perguntar, cada dia.
Pois como Job - na leitura da Missa de hoje - apenas consigo balbuciar: "sou tão pequeno"!
«Pequeno» diante da tarefa imensa que tenho diante de mim; «pequeno» perante a gigantesca responsabilidade que é guiar esta Comunidade para Deus; «pequeno» em talentos e capacidades, em talentos e qualidades!
Mas «grande» neste desejo imenso, total, de aqui me gastar e desgastar para que cada coração seja mais e mais de Deus.
«Grande» nessa vontade de viver em fidelidade e, nela e por ela, servir e amar a Igreja, minha mãe.
«Grande» na certeza que é «aqui» e «agora» que Deus me salva, na medida em que O servir e amar em cada coração que me está entregue.
«Grande» na convicção de que enquanto aqui estiver um único desejo me invade a existência: «no coração da Igreja, eu quero ser o amor».
Amor que se dá e que se recebe; amor que é silêncio e é palavra; amor que é mágoa e é perdão; amor que é abraço e é calúnia acolhida; amor que é bênção é maledicência transfigurada em oblação; amor que é sonho e sorriso cúmplice com tantos e tantos que ousam um mundo e uma Igreja ao estilo e ao jeito de Jesus.
Quatro anos de caminho nestas terras deste Estoril que Deus ama.
Quatro anos de vida que defino como «graça», «gratidão», «bênção», «sonho», «cumplicidade», «ousadia» e «perseverança».
Não isentos de fracassos nem de derrotas; não desprovidos de fragilidades nem de pecados. Mas quatro anos em que «teimosamente» busquei ser o amor no coração da Igreja que também aqui pulsa neste Estoril.

"Sou tão pequeno", Senhor meu Deus!
Mas, «basta-me a Tua Graça».
E como naquele primeiro dia, Te repito, Te segredo, no silêncio desta noite: "Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade"!
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