quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"Sempre Teu! Todo Teu!"

Olho para trás e o que é que vejo?
Revisito o meu passado e o que encontro?
Viajo no tempo e na história da minha vida e o que descubro?
Tão pouco, tantos nadas, tantos nãos!
Tantas portas que eu fechei, diante dos incontáveis sinais que Tu, meu Deus, me enviavas!
Tantos silêncios quando me desafiavas a dialogar com o Teu Coração!
Tantas indisponibilidades sempre que me pedias Te dissesse um simples «Sim»!
Tantas vergonhas e cobardias, tantas misérias e infidelidades diante da Tua proposta de Amor e de Vida Verdadeira!...
Mas forçasTe e conseguisTe entrar, Senhor!
Como Zaqueu, como aquela mulher samaritana, como Mateus, como na vida de tantos e tantos outros, nas minhas estradas p’ra Damasco, nos meus caminhos de Emaús, devastados pelos desalentos do meu peregrinar, foste sol que iluminou todas as minhas sombras de ser!
Foste, meu Senhor, a minha sarça ardente, foste a voz que me chamou…
Pareceu tardar, pareceu uma eternidade de sem sentidos, pareceu um fim definitivo!
Mas forçasTe e conseguisTe entrar, Senhor!
És a voz que me chama, és o som que me embala, és a paz que me sossega, és a melodia que me adormece, és a seiva que me revigora, és a luz que me ilumina…
Sim, Senhor, ao encontrar-Te, eu descobri quem sou!
Ao encontrar-Te eu aprendi a viver verdadeiramente!
Ao encontrar-Te eu percebi como sou!
Ao encontrar-Te eu acreditei que podia ser melhor, que devia ser maior!
E eu quero, Senhor!
Eu quero ser maior; eu quero ser melhor; quero ser corpo do Teu Corpo, sangue do Teu Sangue, rio do teu Mar, vida da Tua Vida.
Eu quero aprender a dizer «Sim» quando o mundo me ensina e convence a dizer-Te «Não»!
Eu quero apenas um coração onde caiba esse Teu Coração trespassado!
Eu quero somente a paz que me ensine os trilhos a seguir quando me perco nas encruzilhadas que a vida me oferece!
Eu desejo só ser Teu!
Sempre Teu!
Todo Teu!
Com essa certeza indestrutível: só Tu sabes mesmo arrebatar, só Tu, meu Senhor, só Tu Estrela e guia do meu cais, só Tu Senhor do perdão e profeta da paz…
Ser Teu!
Sempre Teu!
Todo Teu!

sábado, 2 de outubro de 2010

"Estoril"

Era noite, e sentia um peso enorme sobre os ombros...
Pela primeira vez, pisava o altar da igreja; no silêncio e diante da presença misteriosa mas real de Jesus no Sacrário, apenas Lhe perguntava: «E agora, Senhor?».
Havia professado a fé da Igreja diante de uma nova Comunidade à qual tinha sido envidado a servir; havia dito que sim, que aqui quereria ser imagem do Bom Pastor, nessa missão única e arrebatadora de entregar cada dia, cada hora, minuto e segundo do meu ser.
O desconhecido banhava-me a alma e o coração.
A incerteza abraçava o meu sentir.
A paz que irradiava do Sacrário sossegava o meu interior...
E passaram quatro anos.
Com tantas histórias e momentos, com tantos sorrisos e sonhos, com lágrimas e desalentos, com projectos e esperanças, com soluços e gargalhadas...
«E agora, Senhor?» teimo em perguntar, cada dia.
Pois como Job - na leitura da Missa de hoje - apenas consigo balbuciar: "sou tão pequeno"!
«Pequeno» diante da tarefa imensa que tenho diante de mim; «pequeno» perante a gigantesca responsabilidade que é guiar esta Comunidade para Deus; «pequeno» em talentos e capacidades, em talentos e qualidades!
Mas «grande» neste desejo imenso, total, de aqui me gastar e desgastar para que cada coração seja mais e mais de Deus.
«Grande» nessa vontade de viver em fidelidade e, nela e por ela, servir e amar a Igreja, minha mãe.
«Grande» na certeza que é «aqui» e «agora» que Deus me salva, na medida em que O servir e amar em cada coração que me está entregue.
«Grande» na convicção de que enquanto aqui estiver um único desejo me invade a existência: «no coração da Igreja, eu quero ser o amor».
Amor que se dá e que se recebe; amor que é silêncio e é palavra; amor que é mágoa e é perdão; amor que é abraço e é calúnia acolhida; amor que é bênção é maledicência transfigurada em oblação; amor que é sonho e sorriso cúmplice com tantos e tantos que ousam um mundo e uma Igreja ao estilo e ao jeito de Jesus.
Quatro anos de caminho nestas terras deste Estoril que Deus ama.
Quatro anos de vida que defino como «graça», «gratidão», «bênção», «sonho», «cumplicidade», «ousadia» e «perseverança».
Não isentos de fracassos nem de derrotas; não desprovidos de fragilidades nem de pecados. Mas quatro anos em que «teimosamente» busquei ser o amor no coração da Igreja que também aqui pulsa neste Estoril.

"Sou tão pequeno", Senhor meu Deus!
Mas, «basta-me a Tua Graça».
E como naquele primeiro dia, Te repito, Te segredo, no silêncio desta noite: "Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade"!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

"Tempo favorável"

“Vai caminhando desamarrado
Dos nós e laços que o mundo faz
Vai abraçando desenleado
De outros abraços que a vida dá
Vai-te encontrando na água e no lume
Na terra quente até perder
O medo, o medo levanta muros
E ergue bandeiras pra nos deter

Não percas tempo,
O tempo corre
Só quando dói é devagar
E dá-te ao vento
Como um veleiro
Solto no mais alto mar

"E dá-te ao vento
como um veleiro
solto no mais alto mar..."

Liberta o grito que trazes dentro
E a coragem e o amor
Mesmo que seja só um momento
Mesmo que traga alguma dor
Só isso faz brilhar o lume
Que hás-de levar até ao fim
E esse lume já ninguém pode
Nunca apagar dentro de ti

Não percas tempo
O tempo corre
Só quando dói é devagar
E dá-te ao vento
Como um veleiro
Solto no mais alto mar".

E há um grito que é preciso soltar;
uma voz que urge ser cantada;
uma atitude que importa acelerar;
uma decisão que temos de tomar...
agora é o tempo favorável, agora é a hora do recomeço, do «salto», da aventura que nos atirará para a utopia palpável e sedutora de nos sabermos e sermos profetas.
«Como veleiros, soltos no mais alto mar» dados aos ventos desta História que é a nossa, destemidos e ousados, avançemos rumo à mais bela e apaixonante das missões: oferecermos Deus a este mundo sedento de respostas, repleto de inquietações, esvaziado de sentido!
Um lume que nos devora bem por dentro, esse fogo que nos consome e contagia, tem de ser levado a tantos outros corações arrefecidos, a demasiadas vidas congeladas pelo desamor que abraçaram.
Sem amarras nem âncoras que nos prendam ou segurem, sem vergonhas ou medos que nos paralisem, avancemos decididos, em comunhão, de mãos dadas e corações irmanados, à tarefa inadiável de mostrarmos Deus ao Homem que se cruza connosco.
«O medo, o medo levanta muros e ergue bandeiras para nos deter»!
Vencê-lo com as armas da fé e da caridade, é o nosso caminho, a nossa rota, o nosso destino. Mesmo que doa, cortemos as amarras e deixemos o cais da inércia e da indiferença e erguendo o olhar e o coração, disponhamo-nos a revelar um Amor que nos apaixona, uma paz que nos serena, um fogo que não se extingue, um Espírito que nos vivifica: Deus.
Passo a passo, pegaremos fogo ao mundo.
Devagar, mas confiantes. Serenos. Ousados. Decididos. Conscientes. Demo-nos ao vento, como um veleiro no mais alto mar...
No imenso mar que é esta humanidade, esta cidade, esta comunidade, este homem nosso irmão, caminhemos desamarrados de tudo para oferecermos a liberdade que é ser preso ao Céu. À vida verdadeira. A Deus.
Porque este é o tempo favorável.
Amanhã, poderá ser tarde demais.
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