domingo, 5 de setembro de 2010

"Deus é assim"

"Deus é assim... sabe mesmo arrebatar!
Inquieta a alma e entra assim, sem avisar..."

De forma muita intensa e muito bela, muito profunda e agradecida, vivi hoje na minha Comunidade estas palavras certeiras e concretas, objectivas, reais, acontecidas, amadas...
Quatro jovens desta Paróquia testemunharam hoje, diante de centenas de paroquianos a sua decisão de entrarem amanhã no Seminário. Dois recomeçam a caminhada; os outros dois entram pela primeira vez nessa «estrada» de discernimento, de busca, de desejo autêntico de quererem ser mais e mais de Deus.
Percebemos naqueles corações grandes como Deus sabe mesmo arrebatar!

Olhamos e acreditamos naquelas palavras partilhadas como Deus inquieta, desassossega a alma e entra assim, sem avisar!
Neste «sim» de cada um destes jovens acolhemos as maravilhas de Deus que teima em amar e salvar o Seu Povo, a Sua Igreja. Projectos, sonhos, desejos, expectativas, pessoais que decidem secundarizar para intentarem descobrir a vontade de Deus a seu respeito. Sinais de que Jesus continua a apaixonar profundamente, a arrebatar e a seduzir imensamente.
Como me senti grato diante daqueles jovens e dos seus testemunhos.
Como senti uma alegria e comoção indizíveis ao olhá-los, escutá-los, amá-los, pois que se predispõem a dar a vida por mim, por cada outro, pela Igreja.
Independentemente do fim do caminho a que essa mesmaestrada levar, cada um tornou-se, hoje, para mim, para nós, luz de esperança que me fizeram renascer. Foram "minha estrada de Damasco, trilho de Emaús... Hoje sei que renasci ao conhecer-te, pois ao encontrar-te, ao encontrar-te, eu redescobri Jesus".
O corpo está cansado, exausto, após mais um Domingo carregado de actividades.
A alma serena, leve, suave, agradecida...
Por esses quatro jovens que amanhã entrarão no Seminário.
Por esses outros, muitos mais, que neste preciso momento rezam o Terço no Paredão...
Por cada um desses corações generosos, rebeldes, irreverentes, fracos e frágeis, às vezes irresponsáveis e incoerentes, mas corações inquietos, à procura, desejando mais e melhor...
E é em corações assim, desassossegados, que Deus teima e consegue arrebatar, que Deus provoca, inquieta e entra assim, sem avisar...
Bendito seja Deus!
"Não é digno de Mim"

«Se alguém ver ter comigo e não Me preferir aos seus familiares, não pode ser meu discípulo; quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo; quem não renunciar a todos os seus bens, não pode ser Meu discípulo».
Palavras exigentes do Senhor Jesus, que provocam a nossa inércia e apatia; palavras que desassossegam os nossos comodismos e instalações, que desarmam as nossas consciências sempre tranquilas e serenas diante do que já fizemos, partilhámos ou vivemos!
Estas sentenças de Jesus, escutadas no Evangelho deste Domingo, pretendem definir as verdadeiras características do discípulo. Quando pensamos e nos convencemos que somos de Deus porque celebramos a Eucaristia, fazemos as nossas orações, abraçamos determinadas espiritualidades, o Mestre da Galileia vem esclarecer-nos que apenas somos d'Ele na medida em que O colocamos, profunda e autenticamente, no centro da nossa existência, quando O temos como meta e horizonte do nosso caminhar, como razão primeira e última da nossa vida.
Ser discípulo é mais, é imensamente mais, do que uma simples pertença sócio-religiosa! É mais, é imensamente mais, que um gesticular de rituais ou o afirmar de verdades dogmáticas, por mais profundas, sábias ou espirituais que elas sejam!
Com efeito, a Jesus nunca lhe importou a «massificação» de seguidores, a quantidade de aderentes; ao Mestre de Nazaré importava a qualidade dos discípulos, a pureza e verdade dos seus corações, a adesão gratuita e incondicional das Suas propostas, por mais radicais ou utópicas com que as possamos definir!
O medo dessas palavras, a ligeireza com que demasiadas vezes escutamos a Palavra proclamada, a supérflua interpretação que dela fazemos, segundo os nossos critérios sempre tão terrenos e mundanos, apenas conseguem a adulteração daquilo que Jesus pede à Igreja, a cada um de nós!
Continuo a acreditar que é a exigência que nos prende, que nos seduz e apaixona a grandes ideais. O facilitismo das propostas do tempo actual não conseguem arrebatar as nossas forças, energias e entusiasmos profundos.
Hoje é relembrado a cada um de nós a força de uma Palavra, que incomoda, que desinstala e desassossega. Mas uma Palavra que, feita vida em nós, se transforma em sal e fermento de uma nova humanidade. Escolher Jesus e o Seu Reino, em detrimento dos mais nobres valores e ideais humanos será sempre o único caminho para a pertença ao Céu.
Intentar «baixar a fasquia» da exigência evangélica apenas nos alcançará como resposta a questão sempre actual e pertinente de Jesus: "Também vós vos quereis ir embora?".
"A quem iremos nós, Senhor; só Tu tens palavras de vida eterna" , respondeu Pedro, já consciente da sua fragilidade e pretensão mundana!
Sejamos nós capazes de acreditar que a Palavra de Deus vale mais, imensamente mais, que todas as palavras humanas e decidamo-nos a esse seguimento incondicional.
Aquilo que sempre será considerado loucura para o mundo, torna-se, na fé, sabedoria de Deus. E apenas essa mesma sabedoria nos importa alcançar e viver.
Na verdade, temos de acreditar que não importa tanto sermos muitos; vale apenas sermos bons, sermos santos. Apenas dessa forma seremos "sal da terra e luz do mundo"!
Na medida da nossa entrega confiante a essa Palavra nos escusaremos a escutar aquela outra: "Não é digno de Mim"!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

"Um sopro, um brilho..."

"Eu sinto que vem do céu
Um sopro leve,
Um vento quente que nos aquece,
Um sopro vivo que vem de Deus.
Um vento que acalma o ser
"Passo a passo... pegaremos fogo ao mundo"
E envolve a alma
Do mesmo modo que o mar se acalma
Logo que as ondas se vão deitar

Eu sinto que vem do céu
Um amor imenso
Que se transforma em nuvens de incenso
Um amor suave que vem de Deus
Um amor que nos transforma e alumia
Tal como a noite dá a vez ao dia
Quando as estrelas se vão deitar".

Não se consegue negar que «paira» no «ar» que nos rodeia algo de novo, de diferente, de gozoso, de encantador.
Há um brilho no olhar, no sorrir, no andar, no viver.
Se nos atrevermos a perscrutar que «brisa» ou que «sopro» nos envolve, depressa perceberemos a Fonte dessa força e dessa beleza que nos quer contagiar a todos: Deus.
Adolescentes, jovens, acabados de chegar dos Campos de Fé(rias), trazem tatuados no coração os sentimentos próprios de quem se deixou encontrar e arrebatar por Deus. Eles são a tradução mais perfeita e e actualizada desse «amor que nos transforma e alumia», desse «amor suave que vem de Deus». Eles são a certeza da nossa aposta, a paz e a verdade que outros ventos teimam roubar-nos, a transparência e o sonho que deixámos de abraçar. Eles revelam aquela profundidade e aquela alegria que perdemos com facilidade. Eles são a harmonia bonita apesar das suas fraquezas, rebeldias e fragilidades.
Eles são «vento quente que nos aquece», são «aragem serena que nos refresca», «vento que acalma o ser e envolve a alma».
Saber ser, querer ser, aprendiz desse «vento», desse «sopro» que esses nobres corações nos oferecem!Perceber, acreditar, aceitar, que nós adultos podemos também ser cumplicidade dessa alegria e dessa «garra», sempre que nos despimos das roupagens da aparência e da imagem que nos envolve, seduz e vence!
Tornar a crer no coração. Nesse santuário de vida verdadeira, nessa torrente de humanidade e de gozo que podem transformar-nos em «novidade» permanente para o mundo que nos rodeia.
Tornar a crer nos afectos, na ternura, nos sentimentos. Derrubando muralhas e construindo pontes, para que Deus nos olhe e possa, simplesmente, sorrir.
Brilho novo no olhar, no andar, no viver, que tem a potencialidade de nos contagiar a nós; a outra possibilidade é a de sermos «apagadores» desse «fogo» que nos arde bem diante dos olhos. O medo ou a ousadia, o comodismo ou a aventura, a inércia ou o compromisso, são os trilhos que havemos de percorrer.
Qual será a nossa escolha?
Porque, com mais ou menos consciência, teimosamente, permanecerá sobre nós "um sopro leve, um vento quente que nos aquece, um sopro vivo que vem de Deus".
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