quinta-feira, 19 de agosto de 2010

"Pastores"

"F
oi-me dirigida a palavra do Senhor nestes termos: "Filho de homem, profetiza contra os pastores de Israel, profetiza e diz a esses pastores: Assim fala o Senhor Deus: 'Ai dos pastores de Israel, que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar o rebanho? Vós, porém, bebestes o leite, vestistes-vos com a sua lã, matastes as rezes mais gordas e não apascentastes as ovelhas. Não tratastes das que eram fracas, não cuidastes da que estava doente, não curastes a que estava ferida; não reconduzistes a transviada; não procurastes a que se tinha perdido; mas a todas tratastes com violência e dureza. Por isso, à falta de pastor, elas dispersaram-se e, na sua debandada, tornaram-se a presa de todos os animais dos campos. As minhas ovelhas vagueiam por toda a parte, pelas montanhas e pelas colinas elevadas; o meu rebanho anda disperso por sobre toda a superfície do país; ninguém se preocupa nem as vai procurar.' Por isso, pastores, ouvi a palavra do Senhor: 'Pela minha vida - oráculo do Senhor Deus: porque as minhas ovelhas ficaram entregues à pilhagem e se tornaram a presa de todos os animais dos campos, por falta de pastor; porque os meus pastores não se preocupam com o meu rebanho, porque eles se apascentam a si mesmos e não apascentam o meu rebanho' por isso, pastores, ouvi a palavra do Senhor. Assim fala o Senhor Deus: 'Aqui estou Eu contra os pastores! Vou tirar as minhas ovelhas das suas mãos, e não permitirei que apascentem mais as minhas ovelhas; e eles não se apascentarão mais a si mesmos. Da sua boca arrancarei as minhas ovelhas, e elas nunca mais serão uma presa para eles.'" Porque assim fala o Senhor Deus: "Eis que Eu mesmo cuidarei das minhas ovelhas e me interessarei por elas".

Pastores e pastores!
Deles fala o Coração do nosso Deus. Coração sofrido, Coração «sangrado» porque nos encontra «amolecidos», «endeusados», «politizados», «anunciadores» de nós mesmos. Um Coração magoado porque o Bom Pastor que dá a vida pelas Suas ovelhas nos vê a «adocicar» o Evangelho, a «diplomatizar» a radicalidade e a beleza da Boa Nova! Um Coração «sentido» porque olha as Suas ovelhas desamparadas, esfomeadas, sedentas de vida e de verdade e nós, pastores, demasiadas vezes gastamo-nos e desgastamo-nos a alimentar as nossas veleidades e os nossos «umbigos», as nossas verdades pessoais e vontades idolatradas!
Importa a oração permanente por nós, pastores consagrados por Deus!
Urge a cumplicidade, a comunhão, a caridade e fraternidade cristãs para com cada um de nós.
Deus sofre!
A Igreja sofre!
Porque demasiadas vezes desfiguramos o rosto tão belo e radioso de Deus, do Céu, da Vida em abundância. Porque nos escondemos, nos refugiamos, nos negamos a nós mesmos! Porque nos esquecemos que somos apenas servos, escravos, de cada outro. Porque tememos a radicalidade, a frontalidade, o apontar o caminho certo, sempre que essa aventura é propiciadora de conversas ou diálogos menos animosos, de perca de pseudo privilégios, de honrarias que são sempre pontuais e efémeras!
Um dia, um dia, acreditarei, acreditaremos, completamente que a nossa felicidade, a plenitude da nossa vocação e existência não é fazer a vontade do mundo nem o agradar aos homens; ao contrário, é fazer a vontade de Deus e agradar ao Senhor Crucificado por Amor.
Um dia, um dia - e oxalá seja breve - seremos santos, seremos a alegria do nosso Deus pois que apascentaremos fielmente as ovelhas que nos foram confiadas, saciaremos plenamente as suas fomes, apontaremos solene e fielmente o caminho do Céu. Sem medos. Sem diplomacias. Sem ligeirezas. Sem subterfúgios. Sem condições.
Creio firmemente que um dia, um dia, Deus nos olhará e sorrirá porque somos todos d'Ele pois somos absolutamente servos dos homens nossos irmãos.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

"Fragilidade"

"Talvez pudesse o tempo parar
Quando tudo em nós se precipita
Quando a vida nos desgarra os sentidos
E não espera, ai quem dera
Houvesse um canto pra se ficar
Longe da guerra feroz que nos domina
Se o amor fosse um lugar a salvo
Sem medos, sem fragilidade
Tão bom pudesse o tempo parar
E voltar-se a preencher o vazio
É tão duro aprender que na vida
Nada se repete, nada se promete
E é tudo tão fugaz e tão breve
Tão bom pudesse o tempo parar
E encharcar-me de azul e de longe
Acalmar a raiva aflita da vertigem
Sentir o teu braço e poder ficar
É tudo tão fugaz e tão breve
Como os reflexos da lua no rio
Tudo aquilo que se agarra já fugiu
É tudo tão fugaz e tão breve".

Quando nos convenceremos desta verdade maior: «é tudo tão fugaz e tão breve»?!
O tempo foge, imparável, do controlo das nossas mãos; a voragem dos acontecimentos não consegue ser dominada pelas nossas verdades ou pelos nossos desejos; os segundos dos relógios não abrandam a sua velocidade porque queremos ou nos apetece! De facto, é mesmo «tudo tão fugaz e tão breve»!
Podemos tentar acreditar que a realidade é diferente, que somos donos e senhores do nosso «destino», que controlamos eficácias, horizontes e até a própria vida. Mais um engodo em que sucumbe demasiada gente!
Somos da eternidade e não do tempo; somos do definitivo e nunca do passageiro; do fim e não do instante. Porquê teimar em ser donos da vida, da nossa e da dos outros? Para quê viver em função da aparência e do banal, da máscara e do ilusório se, de facto, «é tudo tão fugaz e tão breve»?
Relembro neste momento as mentes, as vontades e os corações maldosos que grassam no mundo e na Igreja. Gente iludida que acredita que essa mesma maldade ou mesquinhez de atitudes, que a falácia das palavras e dos gestos, que a falsidade de relações e de convivências, se prolongarão definitivamente!
É que até o mal e as suas consequências, o cinismo e as suas ilusórias vitórias, as hipocrisias aparentemente tornadas verdades, são também elas «tão fugazes e tão breves»!
É certo que ainda existe gente a tentar lutar contra Deus. É verdade que ainda peregrinam vidas e corações convencidos de que a duplicidade de vida vingará definitivamente e que as suas atitudes vitupérias levarão a melhor! Pobres e tristes criaturas! Esquecem essa realidade inultrapassável: «é tudo tão fugaz e tão breve»!
A mentira e a maledicência, a falsidade e a incoerência, a calúnia e a baixeza de espírito têm, também eles, os dias contados. Não vale, de todo, teimar em eternizar essa demência existencial, essa loucura crescente tantas vezes mas destinada ao fracasso e à irrupção da verdade.
O bem e a justiça, a transparência e a paz, a honestidade e a frontalidade, ainda que marcados sempre pela dimensão da fragilidade humana têm o suporte da grandeza e do poder de Deus. Serão sempre vencedores. Porque valores e bens assentes na liberdade e na vida verdadeira, ao contrário da maldade e da mentira, sempre revestidos de medo e de insegurança pois que nunca sabem o dia em que serão desmascaradas!
Mesmo na «guerra feroz que nos domina», mesmo que nos custe aprender que «na vida nada se repete», seria bom desejar que o tempo parasse? Penso que não! Ainda bem que não! Porque a estrada da eternidade começa no «agora» e no «já» da nossa existência.
Aos corações manchados pela mentira e pela inveja, revestidos de ciúmes e de cinismos, fica uma «dica»: voltem «a preencher o vazio» desses vossos corações com a alegria da verdade e da paz próprias de quem se sabe simples e frágil, mas sustentado pela graça de Alto.
Não sejam teimosos, não se iludam indefinidamente; é que, mesmo que não queiram, «é tudo tão fugaz e tão breve»!
E nada melhor nem mais reconfortante, nada mais encorajador e entusiasmante que saber e acreditar que essa «vidinha» tresloucada e de espiritualismos doentios está destinada ao fracasso rotundo e absoluto. Pensem nisso. Talvez ainda estejam a tempo de experienciar uma serenidade e uma alegria que essa escuridão da alma que vos invade vos proibe de viver.
E nunca se esqueçam que creio numa «verdade maior»: "a minha vingança é amá-los mais"!
Nunca vos farei mal; seria igual a essa baixeza de espírito. Entrego-vos cada dia à misericórdia do Pai. Porque sei que não sabem o que fazem...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

"Grãos de areia
de uma praia maior"

"Se a tua voz trouxer mil vozes para cantar,
vais descobrir mil harmonias belas
que ao céu hão-de chegar.
Fica mais rica a alma de quem dá,
chega mais alto o hino de quem vive a partilhar.

Tu tens que dar um pouco mais do que tens,
tens que deixar um pouco mais do que há,
se vais ficar muito orgulhoso – vê bem,
tens que te lembrar:
és o grãozinho de uma praia maior,
e deves dar tudo o que tens de melhor,
pr’avaliar a tua Alma: há leis!
Tu tens que dar um pouco mais do que tens!

Olhou p’ró Céu, sentiu que a sorte estava ali.
E com valor foi conseguindo tornar bom o que até era mau.
E grão a grão construiu o seu poder.
E pouco a pouco subiu a escadaria do Amor.

O tempo vai e de um rapaz um Homem vem.
Sem medo vê o teu destino:
vai em frente p’ra servir o Bem.
É tão profunda a mensagem que chegou.
São tão seguras e largas as pontes qu’Ele deixou".

Não seriam precisas mais palavras esta noite para que se entendesse esta minha partilha; elas são bem espelho daquilo em que acredito, da força que me anima, do horizonte que me desafia...
Ser capaz de ir mais além, mais longe, mais alto; ser capaz de dar e de ser dar sempre mais e mais, com a mais nobre das consciências: somos apenas uns pequenos grãos de areia nessa Praia imensa, maior, que é o mundo, que é o próprio Deus.
No gostar desta missão aprendemos e reaprendemos a sublimidade da humildade e a nobreza da simplicidade. No apostar neste estilo de vida somos grandes e fortes, ricos e poderosos, pois que não viveremos em função das aparências, das imagens, dos acessórios, desse «cliché» tremendo e assustador que defende que "parecer bem é fundamental"!
Dar tudo quanto temos e somos de melhor: que maior e melhor vocação? Que mais belo e profundo desafio?
Mesmo - e por isso mesmo - sendo pequenos grãos de areia nessa praia maior que nos envolve, "fica mais rica a alma de quem dá, chega mais alto o hino de quem vive a partilhar".
O mundo contemporâneo, com as suas «modas» e os seus «mandamentos» assustam quem intentar a diferença, ousando a transparência e a verdade, a justiça e a humildade, a disponibilidade e a entrega! Mas é precisamente nesses momentos de «medo» e de «desalento» que havemos de relembrar e escutar um palavra que não passa: «Não tenhais medo; Eu venci o mundo"!
Quem dera que quisessemos ficasse mais bela a nossa alma...
Quem dera pertencessemos ao grupo daqueles corações que têm sempre para dar um pouco mais do que têm!
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