"Voar"
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(...) E algo em mim sobreviveDesesperadamente
despida e solitária
agarra-se à terra e ao tempo
entre golpes de raiva e ternura
os meus sonhos e os meus fracassos
Há escuro
Na inquietação do vento
Nas luzes esquecidas do rio
E tentam roubar-nos os dias
Tentam calar-nos as forças
Mas algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio, perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
No teu carro
Cruzámos as fronteiras
Bebemos cervejas e sonhámos
De tudo o que há sem regresso
Quem guardará o passado?
Entrego-me
Em passos sem destino
Até onde a fúria se acalma
Vou procurando a gente
Que à noite na rua cantava".
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Tentam calar-nos as forças
Mas algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio, perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
No teu carro
Cruzámos as fronteiras
Bebemos cervejas e sonhámos
De tudo o que há sem regresso
Quem guardará o passado?
Entrego-me
Em passos sem destino
Até onde a fúria se acalma
Vou procurando a gente
Que à noite na rua cantava".
.
Porque a vida se faz vivendo e a história se escreve existindo, porque o tempo não nos pertence nem o destino é feito por nós, importa essa decisão permanente de «busca» e de «inquietação», de «sentido» e de «entrega», de «desassossego» e «ousadia» a fim de nos deixarmos arrebatar e conquistar por Deus bem mais que pelas promessas sempre vãs dos homens de cada tempo!
«Lobos revestidos de cordeiros» vagabundeiam sempre ao nosso lado, intentando apenas aniquilar sonhos e projectos, aventuras e horizontes...
De facto, em cada tempo e lugar, "tentam roubar-nos os dias, tentam calar-nos as forças" porque temem a beleza do amor, a grandeza da verdade, a nobreza da humanidade. «Lobos» sequiosos, sedentos, de «sangue» que alimentem frustrações e ciúmes pessoais, que protelem egoísmos e fracassos interiores, usando e abusando do nome santo de Deus, não são raros nos cruzamentos das vidas de cada um de nós!
Mas urge cantar, mas importa gritar, mas é preciso viver nessa certeza inabalável que canta o poeta: "mas algo em mim sobrevive desesperadamente", crendo que por fim brotará o sol da justiça e brilhará a luz da ternura que transforma os corações.
"Entrego-me
Em passos sem destino
Até onde a fúria se acalma
Vou procurando a gente" que comigo ousa o sonho de uma nova humanidade, de uma Igreja outra, onde as suas raizes são a paz e a transparência, a verdade e a confiança, a amizade e a vida partilhada em verdade.
Talvez seja mesmo por aí o nosso caminho: em passos sem destino, sem certezas, sem rotas definidas, senão mesmo esse Sinal eloquente e indestrutível que é um Madeiro no cimo de um monte!
Algo em mim sobrevive, desesperadamente, pois que é a Deus que quero ser fiel, a Ele que busco servir, n'Ele que me quero encontrar, a Ele que quero agradar.
Desistam, oh tristes vidas, oh pobres corações, de tentarem roubar-nos os dias ou calar-nos as vozes! Não é a essa mediocridade que sucumbimos, a essas ameaças que retrocederemos na caminhada; é Deus e a exigência e radicalidade da Sua Palavra que nos sustenta. Hoje. Sempre. Até à eternidade.
"Hoje só quero deixar viver este momento", "quero que por fim nos traga o sol" Aquele que sonda os corações e lê o mais recôndito das nossas almas.
Caminhando pela «cidade», cruzemos fronteiras, ousemos os sonhos, que jamais cobardia alguma conseguirá obstruir o nosso vôo de liberdade e de vida.


