sexta-feira, 30 de julho de 2010

"Alto mar"

"Vai caminhando desamarrado
Dos nós e laços que o mundo faz
Vai abraçando desenleado
De outros abraços que a vida dá
Vai-te encontrando na água e no lume
Na terra quente até perder
O medo, o medo levanta muros
E ergue bandeiras pra nos deter
Não percas tempo,
O tempo corre
Só quando dói é devagar
E dá-te ao vento
Como um veleiro
Solto no mais alto mar
Liberta o grito que trazes dentro
E a coragem e o amor
Mesmo que seja só um momento
Mesmo que traga alguma dor
Só isso faz brilhar o lume
Que hás-de levar até ao fim
E esse lume já ninguém pode
Nunca apagar dentro de ti
Não percas tempo
O tempo corre
Só quando dói é devagar
E dá-te ao vento
Como um veleiro
Solto no mais alto mar".

Ser e saber-se caminhante; ser e sentir-se peregrino, rumo a uma outra margem, outro destino, outra pátria, buscando esse «lume» que jamais alguém poderá apagar!
Caminhando, por cada lugar, cada segundo da vida, desamarrado desses «nós» e desses «laços» que nos atam e prendem aos «nadas» e às «mentiras», aos «vazios» e «ocos» das promessas que nos seduzem, vencem e convencem com demasiada facilidade.
Coragem. Ousadia. Audácia.
Para «libertar o grito que trazemos dentro». Para sentir e pressentir esse apelo do Alto a algo mais nobre e mais fundo, àquela paz, àquele sorriso, que temos medo de experimentar simplesmente porque não estão «na moda nem em voga», porque não iluminam os nossos olhos sedentos de deslumbramentos efémeros, banais, carregados de ligeireza anestesiante!
Há um «fogo», há um «lume» bem dentro de nós!
Há uma força, uma luz, uma graça, um infinito, que nos enche e preenche de verdade.
Ousar soltar as amarras da moda e do tempo, a fim de sermos nós mesmos, sermos coração, sermos paixão, sermos verdade e vida em abundância.
Não podemos, não devemos «perder tempo»! «O tempo corre»! E pode ser tarde demais. Podemos ficar «velhos» antes de tempo; podemos perder a sensibilidade e o sabor da vida verdadeira, desprezando a brisa da história, o vento suave que refresca a existência e nos envia como «um veleiro solto no mais alto mar» rumo a Ele, O Senhor, a Paz, a Alegria, a Vida.
«O medo, o medo, levanta muros e ergue bandeiras para nos deter»!
O medo do coração, o medo do amor, o medo da paixão, o medo da verdade, «mata antes de se morrer»!
Soltar as amarras, içar a âncora que nos encalha, erguer o olhar para o horizonte, e ser capaz, e desejar, e ousar, velejar no mais alto mar desta nossa vida.
Agora. Hoje. Enquanto é tempo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

"Gente"

"As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir
Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir
São emoções que dão vida
à saudade que trago
(...)
Há dias que marcam a alma
e a vida da gente".

Quando a vida nos proporciona «paragens», «silêncios», «viagens» no tempo e na história, facilmente nso confrontamos com verdades como estas tão bem expressas neste fado chamado «Chuva».
Com efeito, quando a vida é um coleccionar de coisas banais e vulgares, quando viver é deixar acontecer, pura e simplesmente, demitindo-nos de protagonizar sentimentos, projectos, sonhos, não é difícil sentirmo-nos vazios, ocos, desprovidos de sentido, de essencial...
Quando não temos medos de olhar o passado, mais ou menos recente, claramente podemos reconhecer que, verdadeiramente «há gente que fica na história da história da gente». E essa experiência, essa possível saudade, é benéfica, positiva e salutar.
Necessariamente para alguém crente, advém depressa a dimensão da gratidão. Gratidão por Deus ter colocado nos nossos caminhos, nas nossas histórias, «gente que fica na história da história da gente».
Muitas, poucas, suficientes, que importa?
Uma que fosse, uma única vida que fosse, que possamos recordar, que sintamos que marcou definitivamente a nossa história pessoal, já valeu a pena esse encontro, mesmo que presseguido por um qualquer desencontro, mais ou menos demorado.
Gente que nos fez acreditar, gente que nos apontou caminhos e metas, gente que por nós e connosco sorriu, chorou, sonhou, gente que nos soube abraçar no momento certo e a quem pudemos abraçar com carinho, ternura, amizade, cumplicidade... Gente que ficou na história da gente.
Gente que criou em nós e nós neles emoções, sentimentos, esperanças, gargalhadas, pureza de coração, ousadia de atitudes, gente «que marcam a alma e a vida da gente».
Homens e mulheres, crianças, jovens, rostos concretos que cabem no meu coração.
Histórias bonitas de gente que me ensinou - e ensina - que o amor - nas suas múltiplas traduções - são o mais belo tesouro que podemos almejar possuir para poder depois partilhar. Histórias de gente que passou e passa neste coração e que me deixam desassossegado na medida em que incentivam à descoberta e redescoberta desse mesmo amor como pêndulo de equilibrio na minha própria vida.
Gostaria - mas jamais o posso fazer - de aqui deixar nomes, histórias, rostos, episódios, sonhos, lágrimas, sorrisos, afinal, «gente que fica na história da história» desta gente que também sou.
Não, não é um texto ou um momento de nostalgia interior; antes de sincera e profunda gratidão e reconhecimento aos muitos, aos tantos, às gentes que ficaram e ficam na história da minha prórpia história.
É um texto «viajado» com tempo, com deleite, com a saudade fecunda e libertadora, com sorriso de alma e de coração, por ser incapaz de escrever esses incontáveis nomes, essa multidão de gente...
É verdade também que há outras gentes «que nem o nome lembramos ouvir». Porque não marcaram, porque não deixaram traços inequívocos do que vale mais, desse amor que teimosamente hei-de deixar guiar-me e por ele me entregar até «ao fim do meu fim».
Creio, creio nessa humanidade, nessas gentes que fazem do amor, da verdade, dos sentimentos, da amizade verdadeira, hinos à existência, razões de suspirar cada segundo da vida...
A essa «gente que fica na história da história da gente», esta noite, gostava de a presentar com um abraço apertado, firme, forte, segregando-lhes aos ouvidos do corpo e da alma: «gosto de ti, preciso de ti».

terça-feira, 13 de julho de 2010

"Um pouco de céu"
"Só hoje senti
Que o rumo a seguir
Levava pra longe
Senti que este chão
Já não tinha espaço
Pra tudo o que foge
Não sei o motivo pra ir
Só sei que não posso ficar
Não sei o que vem a seguir
Mas quero procurar


E hoje deixei
De tentar erguer
Os planos de sempre
Aqueles que são
Pra outro amanhã
Que há-de ser diferente
Não quero levar o que dei
Talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar
Um pouco de céu
Um pouco de céu


Só hoje esperei
Já sem desespero
Que a noite caísse
Nenhuma palavra
Foi hoje diferente
Do que já se disse
E há qualquer coisa a nascer
Bem dentro no fundo de mim
E há uma força a vencer
Qualquer outro fim".

As letras das músicas podem, muitas vezes, ajudar-nos a recentrar prioridades, a redescobrir os caminhos a percorrer, a discernir e a agradecer a presença de Deus na nossa própria vida.
Esta, por exemplo, reforça esta nossa condição de peregrinos, que buscando o Céu, podemos e devemos, «experimentá-lo» no quotidiano da nossa existência.
«Um pouco de céu» sempre que nos predispomos à procura, à aventura, à descoberta; «um pouco de céu» quando nada nos prende, aprisiona, paralisa ou apaixona senão mesmo Deus e a Sua Palavra; «um pouco de céu» quando se aposta no definitivo e renega o efémero, o pontual e o passageiro; «um pouco de céu» na medida em que nada absolutizamos, nada nem ninguém endeusamos, realidade alguma nos seduz desmedidamente, a não ser a busca da fidelidade a Deus como «uma força a vencer»...
Soltos, livres, livres de tudo, livres de nós próprios, para sermos mesmo de Deus, dos outros, numa vontade séria e permanente, de sermos intercessores, profetas, de um Céu que nos foi conquistado pela força de uns braços abertos no cimo de uma Cruz!
«Deixar de tentar erguer os planos de sempre», ou seja, fugirmos da rotina e da habituação, jamais suportarmos a banalizaçãoe  a mediocridade como opções de vida, para reconquistar «um pouco de céu» que a intimidade com Deus nos alcança no «já» e no «agora» da vida...
Buscar o sabor da verdadeira liberdade, experienciar a alegria e a paz de autêntica verdade, são desafios que, ainda que por vezes tortuosos, nos alcançam algo que nada nem ninguém, por mais «poderoso» que seja, nos poderá tirar...
«Um pouco de céu» na construção diária da nossa relação com Deus para vivermos a beleza e o encanto do Céu.
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