"Gente"
"As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir
Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
São emoções que dão vida
à saudade que trago
(...)
Há dias que marcam a alma
e a vida da gente".
Quando a vida nos proporciona «paragens», «silêncios», «viagens» no tempo e na história, facilmente nso confrontamos com verdades como estas tão bem expressas neste fado chamado «Chuva».
Com efeito, quando a vida é um coleccionar de coisas banais e vulgares, quando viver é deixar acontecer, pura e simplesmente, demitindo-nos de protagonizar sentimentos, projectos, sonhos, não é difícil sentirmo-nos vazios, ocos, desprovidos de sentido, de essencial...
Quando não temos medos de olhar o passado, mais ou menos recente, claramente podemos reconhecer que, verdadeiramente «há gente que fica na história da história da gente». E essa experiência, essa possível saudade, é benéfica, positiva e salutar.
Necessariamente para alguém crente, advém depressa a dimensão da gratidão. Gratidão por Deus ter colocado nos nossos caminhos, nas nossas histórias, «gente que fica na história da história da gente».
Muitas, poucas, suficientes, que importa?
Uma que fosse, uma única vida que fosse, que possamos recordar, que sintamos que marcou definitivamente a nossa história pessoal, já valeu a pena esse encontro, mesmo que presseguido por um qualquer desencontro, mais ou menos demorado.
Gente que nos fez acreditar, gente que nos apontou caminhos e metas, gente que por nós e connosco sorriu, chorou, sonhou, gente que nos soube abraçar no momento certo e a quem pudemos abraçar com carinho, ternura, amizade, cumplicidade... Gente que ficou na história da gente.
Gente que criou em nós e nós neles emoções, sentimentos, esperanças, gargalhadas, pureza de coração, ousadia de atitudes, gente «que marcam a alma e a vida da gente».
Homens e mulheres, crianças, jovens, rostos concretos que cabem no meu coração.
Histórias bonitas de gente que me ensinou - e ensina - que o amor - nas suas múltiplas traduções - são o mais belo tesouro que podemos almejar possuir para poder depois partilhar. Histórias de gente que passou e passa neste coração e que me deixam desassossegado na medida em que incentivam à descoberta e redescoberta desse mesmo amor como pêndulo de equilibrio na minha própria vida.
Gostaria - mas jamais o posso fazer - de aqui deixar nomes, histórias, rostos, episódios, sonhos, lágrimas, sorrisos, afinal, «gente que fica na história da história» desta gente que também sou.
Não, não é um texto ou um momento de nostalgia interior; antes de sincera e profunda gratidão e reconhecimento aos muitos, aos tantos, às gentes que ficaram e ficam na história da minha prórpia história.
É um texto «viajado» com tempo, com deleite, com a saudade fecunda e libertadora, com sorriso de alma e de coração, por ser incapaz de escrever esses incontáveis nomes, essa multidão de gente...
É verdade também que há outras gentes «que nem o nome lembramos ouvir». Porque não marcaram, porque não deixaram traços inequívocos do que vale mais, desse amor que teimosamente hei-de deixar guiar-me e por ele me entregar até «ao fim do meu fim».
Creio, creio nessa humanidade, nessas gentes que fazem do amor, da verdade, dos sentimentos, da amizade verdadeira, hinos à existência, razões de suspirar cada segundo da vida...
A essa «gente que fica na história da história da gente», esta noite, gostava de a presentar com um abraço apertado, firme, forte, segregando-lhes aos ouvidos do corpo e da alma: «gosto de ti, preciso de ti».


