quinta-feira, 8 de julho de 2010

"Agradecer"
 
Gostava tanto de poder agradecer a cada coração que comigo, hoje de forma particular, se fez uno, se fez comunhão, cumplicidade, acção de graças, sonho, caminho...
De muitas formas, de vários lados, como soube bem sentir essa presença de cada um numa data que se torna para nós, sacerdotes, única, indelével, eternamente misteriosa! Cada palavra, telefonema, mensagem, email, prece, eucaristia, senti renovar aquele «sim» proclamado conscientemente há já dezanove anos atrás; senti aquela paz, aquela alegria, aquele Céu que experienciei naquela tarde de 7 de Julho de 1991.
Agradeço a cada um, na simplicidade, no silêncio, na verdade da minha oração.
Entrego ao Bom Pastor cada sinal, cada manifestação, cada abraço, partilhado hoje comigo e por mim.
Na verdade, há dias, ocasiões, aconteciementos, que nos fazem entender melhor o mistério da Igreja e da comunhão como «traço» e «marca» do nosso existir. Celebrar o aniversário da nossa Ordenaçao Sacerdotal é, sem dúvida alguma, um desses momentos inesquecíveis, pois que mais depressa viajamos no tempo, com mais facilidade nos deixamos envolver pela sombra fecunda da gratidão, da humildade, da confiança e da paixão.
Dezanove anos, onde tantos e tantos corações já se cruzaram com o meu; onde tantas vidas generosas, belas, puras, verdadeiras, abnegadas, me ajudaram a ser aquilo que hoje sou; onde incontáveis almas «silenciosas» me ensinaram o caminho para Deus no coração e no seio da Igreja.
Por todos esses rezei hoje de forma agradecida; por quantos se sentiram magoados, traídos, ofendidos ou desapontados, pelo meu ser padre, pedi também e, particularmente, perdão!
Soube bem este dia...
Iniciá-lo, na recitação do Terço com corações jovens da paróquia; terminá-lo com a bonita e gratificante presença de um grupo de jovens e menos jovens que me presenteou com a sua presença, fazendo para isso várias centenas de quilómetros!
A todos, a cada um, um profundo e sincero bem-haja.
Adormecerei hoje, particularmente, a rezar por quantos hoje, durante este dia, fizeram o favor de se lembrar de mim e de por mim rezar...
Que eu seja sempre mais e mais digno dessa oração, dessa amizade, dessa confiança, servindo e amando a Igreja que são...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

"Minhas mãos"

Lembro-me bem daquele momento: o Bispo tomou as minhas pobres mãos, trémulas e frágeis, nas suas próprias mãos, tão serenas, tão confiantes, tão ungidas. De seguida, impuseram as mãos todos os sacerdotes presentes que, por esse solene gesto, me tornaram um deles. Pouco depois, o Bispo ungiu estas minhas mãos, sinal de eleição, de compromisso, de consagração, de missão.
Depressa estas minhas mãos foram usadas para abraçar, estendidas para consagrar, elevadas para abençoar, expostas em súplica e acção de graças, abertas e prontas para distribuir o Pão do Céu.
Mãos usadas para benzer filhos e pais, avós e netos; mãos usadas para abençoar amigos e família, conhecidos desconhecidos, próximos e estranhos, pois que todos quantos as tocam ou as beijam sabem bem que significam bênção e presença d'Aquele que chama, consagra e envia...
Minhas mãos ungidas, consagradas, que apontam o caminho do Céu. Que apanham lixo nas salas da catequese ou papéis deixados na igreja. Minhas mãos que escrevem textos para o boletim paroquial, para o jornal, a página da net ou o blog. Mãos que viram as páginas do breviário, desfiam as contas do rosário ou abrem o Missal em cada dia.
Mãos que contam partículas para a Eucaristia, os ofertórios da Missa, que acendem as velas do altar, que fazem o sinal da cruz...
Minhas mãos que tanto já gesticularam, que suaram incontáveis vezes, que tocaram tanta e tanta gente...
Mãos que serenaram almas inquietas, limparam lágrimas sangradas, abraçaram corações despedaçados, suavizaram vidas desassossegadas. Mãos que apoiaram tantas e tantas vezes a minha cabeça, tantas as vezes que não vislumbrava os caminhos a trilhar, a prosseguir. Mãos elevadas em prece pedindo, suplicando, a ajuda do Céu.
Mãos ungidas, há já dezanove anos.
Mãos com marcas, calos, rugas; mãos que por vezes apelam descanso, recompensa, pausa, diante de tudo quanto já fizeram... Mas que não o farei, que não posso, nem quero fazer, simplesmente porque há ainda tanto a fazer...
Porque a messe é grande e os trabalhadores são poucos.
Há ainda tanto a fazer! Tantos a abençoar. A ungir. A abraçar. A amar.
Minhas mãos que hoje renovo a consagração, a entrega, o abandono, a confiança Àquele que por mim, por nós, abriu as Suas até ao limite, à morte que gera Vida.
Minhas mãos ungidas, que são mãos de Deus, que são vossas, meus paroquianos, meus amigos, pais, mães, família, terras e bens.
Mãos minhas que, como naquele primeiro dia, permanecem trémulas diante do mistério que as envolve; mãos que suam perante a missão que me foi confiada: ser todo de Deus sendo todo vosso, homens e mulheres meus irmãos.
«Totus tuus» meu Senhor. «Totus tuus» Estoril. «Totus tuus» Igreja Santa de Deus...

terça-feira, 6 de julho de 2010

"Até ao fim do fim"

"Até ao fim do fim eu vou-te amar
Até ao fim do fim eu vou-te amar
Mas mesmo assim amor eu vou-te amar
Até ao fim do fim eu vou-te amar
Até ao fim do fim eu vou-te amar".

Versos tão simples quão belos, tão singelos quão «sagrados» que nos falam da mais fantástica forma de vida! Letra de um fado que que nos relembra algo que teimosamente desejamos esquecer, emudecer, afastar: o Amor.
Amar. Amar até ao fim do fim; amar até fim do nosso fim... estrada magnífica, mesmo insuperável, que apenas pode ser trilhada pelos fortes e audazes de cada tempo. Caminho que pode, desde já, ser aventura e desejo, sonho e projecto, para quem se decidir a cortar as tamanhas amarras que nos aprisonam ao cais da nossa tibieza e da nossa ligeireza!
Ser capaz de fechar os olhos; imaginar um horizonte inacabado, um mar imenso, e a(A)lguém a segredar-nos, quase a pedir-nos: «amar até ao fim do fim»...
Amar. Muito. Sempre. Mesmo que nos doa. Mesmo que sangre este nosso grande coração. Ainda que duvidemos demasiadas vezes dessa beleza, dessa sempre «estranha forma de vida».
Amar, muito, sempre, porque só assim somos verdadeiramente homens e mulheres.
Até ao fim do nosso fim.
Para que sejamos estes navegantes de um «mar» que não se esgota, de uma alma que não se cansa, de um coração que pulsa ao jeito de Quem nos amou até ao fim do Seu fim... Deus!
Medos.
Ansiedades.
Vergonhas.
Cobardias.
Rotinas.
Enganos.
Beleza. Sonho. Plenitude...
São muitas, diversificadas as atitudes, as formas de olharmos para o Amor.
Importa escolher, decidir, abraçar, crer!
Porque apenas nessa medida seremos uma outra humanidade.
Apenas dessa forma revelaremos a Igreja conquistada por Quem nos amou até ao fim do Seu próprio fim.
Sozinho, posso chegar mais depressa...
Acompanhado, certamente chegarei mais longe...
E é na companhia, na cumplicidade, de quem passa pela vida de mãos dadas ao Amor que quero continuar a minha peregrinação pelo mundo finito rumo ao infinito Amor. Até ao fim do meu fim...
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